Tudo estava escuro.
Não era apenas ausência de luz, era uma escuridão espessa, viva, que parecia pressionar o corpo de Anton por todos os lados. Ele abriu os olhos de repente, puxando o ar com dificuldade, o peito ardendo como se tivesse sido esmagado. Cada respiração doía, estava tonto e mal conseguia ver um palmo a sua frente.
Estava amarrado.
Os pulsos presos acima da cabeça, cordas grossas mordendo a pele, as pernas imobilizadas. O corpo inteiro latejava, músculos rígidos, costelas doloridas, o gosto metálico de sangue seco ainda presente na boca.
— Porra… — murmurou, a voz rouca demais até para seus próprios ouvidos.
Dentro dele, algo se mexeu.
“Estamos vivos.” A voz veio arrastada, cansada, ferida.
— Elariel… — Anton fechou os olhos por um segundo, tentando se conectar melhor com seu lobo.
“Machucados, muito machucados.” O lobo rosnou baixo, irritado. “Mas não quebrados.”
Anton puxou as cordas instintivamente, testando os nós. Elas não cederam nem um centímetro.
— Onde diabos estamos?
“Lugar antigo.” Elariel se mexeu inquieto sob a pele dele. “Cheira a mofo. A pedra. A algo… errado.”
Anton respirou fundo, ou tentou. Cada movimento puxava dor. Então sentiu.
O cheiro.
Familiar demais.
Não era o cheiro da floresta, nem da alcateia do irmão, nem dos renegados que conhecia tão bem. Era algo mais profundo, mais antigo, algo que fazia o instinto dele se eriçar por completo.
— Não… — murmurou, o coração acelerando. — Isso não é possível.
O silêncio foi quebrado por um som suave.
Passos.
Anton ergueu o rosto com esforço, os olhos tentando se acostumar à penumbra. Então viu.
Dois pontos de luz azulada se acenderam na escuridão.
O lobo dentro dele rosnou com força agora.
“Perigo.”
— Aparece — Anton rosnou de volta, forçando arrogância mesmo preso. — Sai da sombra, porra!
A luz aumentou, e então a criatura saiu da escuridão.
Anton sentiu o mundo girar.
Não era um lobo comum, nem um deles. Aquilo era maior, mais alto, o corpo ereto sobre duas pernas, músculos grotescamente definidos sob a pele escura. Os olhos azuis brilhavam com inteligência demais para ser apenas um monstro.
E quando o rosto ficou visível…
Anton sentiu o sangue gelar.
— Não… — sussurrou, incrédulo. — Isso… isso não pode estar certo.
Elariel rugiu dentro dele, selvagem.
“FUGIR. AGORA.”
A criatura sorriu.
Um sorriso lento.
Consciente.
— Ainda não — disse uma voz profunda, distorcida, que parecia ecoar dentro da cabeça de Anton mais do que no ambiente. — Você acabou de acordar.
Anton puxou as cordas com força agora, ignorando a dor.
— O que você quer comigo?
O monstro inclinou a cabeça, analisando-o como quem avalia uma presa interessante.
— Você sabe exatamente o que eu quero… — respondeu. — E logo ela vai saber também.
A palavra “ela” ecoou.
— Não se atreva — Anton rosnou. — Não a envolva nisso.
O sorriso da criatura se alargou.
— Já está envolvida há muito tempo, alfa.
***
“Preciso fugir.”
O coração de Liana deu um salto violento, ela levou a mão ao peito, sentindo o ritmo acelerar.
— Liana? — Dante franziu a testa. — Você ficou pálida.
— Eu… — ela engoliu em seco. — Eu achei que ouvi alguém me chamar.
Os olhos dele se estreitaram por um segundo.
— Aqui dentro? Só tem a gente e os funcionarios aqui.
Ela assentiu, confusa.
— Foi estranho… como se fosse… dentro da minha cabeça.
Dante ficou tenso.
— O que você ouviu?
Liana hesitou, não queria parecer louca.
— Nada importante — mentiu. — Deve ser cansaço.
***
Fogo.
O cheiro de fumaça.
Gritos.
Dante corria pela alcateia em chamas, o coração batendo descompassado, o lobo urrando dentro dele. Corpos no chão. Casas destruídas. Sangue.
— CELESTE! — ele gritou, desesperado.
Então viu.
Anton estava parado no centro da clareira, Celeste nos braços, seu vestido dela ensanguentado. A cabeça caída para o lado e a garganta aberta.
Dilacerada.
— NÃO… — o grito de Dante rasgou o ar.
Anton ergueu o olhar devagar, não havia arrependimento.
Só satisfação.
— O que você fez?! — Dante rugiu, avançando.
— Tirei de você o que você tirou de mim — Anton respondeu, a voz calma demais. — Agora estamos quites.
Dante não pensou só atacou, os dois colidiram com violência, garras, dentes, sangue. A luta foi brutal, descontrolada.
Até que…
— PAPI!
Kian estava ali, olhos arregalados, assustado. Dante virou-se instintivamente, o lobo recuando para protegê-lo.
Foi o suficiente. Anton recuou o olhar fixo no irmão, os dentes a mostra, ameaçador.
— Isso ainda não acabou — disse antes de desaparecer na escuridão.
***
Dante piscou.
Estava de volta ao restaurante.
Liana o encarava, o rosto sério, os olhos cheios de perguntas.
— Ele matou ela — Dante disse, a voz vazia. — Na minha frente, isso é tudo o que tenho para contar.
— Por que?
— Precisa de um motivo? — perguntou, na defensiva, tentando não ser rude. — Meu irmão é um monstro, Liana, é isso o que ele faz.
Mesmo com as palavras dele, ela sentia que algo estava errado… Que havia mais naquela história do que Dante queria contar.

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