A voz de Norberto era fria e baixa, tão cortante quanto o vento de inverno.
Assim como seu olhar afiado e seus traços faciais marcantes, carregava uma agressividade difícil de resistir.
O meu coração, já frágil e esgotado, se despedaçou com aquela frieza, deixandome com um vazio gelado no peito.
Frio e vazio.
Meu olhar vacilou por um instante e logo ficou embaçado.
Por volta das oito ou nove horas, no momento mais movimentado do hospital, pessoas passavam de um lado para o outro no corredor. Eu e Norberto estávamos em uma esquina, cercados por vozes barulhentas, mas eu me sentia em uma caverna de gelo, mergulhada no silêncio.
Aquela agitação não tinha relação comigo. Havia um vidro à prova de som entre mim e o mundo. Eu não ouvia nada, não sentia nada. Só restava o frio.
E Norberto, parecendo uma escultura de gelo na minha frente.
Com o seu olhar frio e afiado.
Meu marido, que já me havia traído, agora me questionava se eu estava saindo com outro homem.
Mas será que ele se esqueceu do que havia feito?
Ele andava por aí com a amante todos os dias, e hoje exibia na pele as marcas do que faziam os dois, para todo mundo enxergar. E, mesmo assim, tinha a coragem de me questionar friamente?
— Então o Dr. Cavalcante ainda lembra que não nos separamos oficialmente? — Apertei os dedos, forçando as lágrimas a recuarem, e encarei os olhos escuros agitados de Norberto com uma risada leve. — Achei que tivesse esquecido, já que passa as noites fora, se misturando com a sua amante todos os dias.
— Noemia Monteiro. — O tom de Norberto ficou ainda mais baixo.

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