Ponto de vista de Aysel
O grito rasgou o silêncio da madrugada.
Meu.
Antes que eu pudesse me afastar, um braço pesado se enroscou na minha cintura, puxando-me de volta contra a parede sólida de músculos e calor atrás de mim.
— Por que está gritando? — a voz perto do meu ouvido era baixa, áspera e carregada de diversão. — Dorme mais um pouco.
Dormir? Meu corpo ficou rígido, meu coração batendo como um tambor. O cheiro dele — aço frio, cedro queimado e algo mais sombrio — preenchia o ar. Era o tipo de cheiro que avisava qualquer lobo sensato para fugir. Mas o braço dele não afrouxou.
— Você... por que está na minha cama? — sussurrei, empurrando o peito dele. Era como tentar mover uma montanha.
Ele abriu um olho, prata cintilando como a lâmina de uma faca.
— Correção, pequena Vale, você está na minha cama.
Meu queixo caiu.
— Eu estava dormindo no sofá!
— Você entrou sozinha. — A voz dele estava carregada de sono, preguiçosa, despreocupada. — Não trancou a porta. Deve ter sonambulismo.
— Eu não sou sonâmbula!
— Aparentemente, é. — Ele nem se deu ao trabalho de fingir que se importava.
Eu me torci, tentando me soltar, mas, quanto mais me mexia, mais apertado o braço dele ficava. Um ronco baixo rolou no peito dele, metade aviso, metade instinto. E então — espíritos do céu — ele enterrou o rosto na curva do meu pescoço. A barba por fazer raspava minha pele, áspera e íntima, e a respiração dele deslizava quente contra a pulsação na minha garganta.
Meu lobo se eriçou, o calor acendendo sob minha pele. Cada nervo gritava perigo. E, ainda assim... não era só medo que fazia meu corpo tremer.
— Relaxa. Nada aconteceu — ele murmurou, voz rouca e tão perto que dava para sentir o gosto.
— Então talvez pare de agir como se tivesse acontecido — consegui dizer, tentando soar calma mesmo com meu pulso me traindo.
Ele me ignorou completamente, como um Alfa desprezando o protesto de um lobo inferior.
— Me solta.
— Não.
— Magnus...
Ele fez um som que podia ser um rosnado ou um suspiro.
— Você disse que me devia. Dorme ao meu lado por um mês, aí ficamos quites.
Eu pisquei, olhando para ele como se tivesse crescido outra cabeça.
— Como é?
— Só dorme — disse com uma calma irritante. — Sem marcas de mordida. Sem reivindicações. — A boca dele se curvou, preguiçosa e perigosa. — Ainda.
Eu congelei. Ainda?
Santos da Lua. Ele estava falando sério?
— Ninguém te ensinou limites de onde você vem? — retruquei.
— Limites? — Ele finalmente abriu os dois olhos, prata queimando como luar através da fumaça. — Eu não tenho nenhum.
Quase engasguei.
— Você... você não pode simplesmente...
— Não posso o quê? — ele arrastou as palavras. — Compartilhar a cama com uma loba que grita como se estivesse sendo assassinada ao amanhecer?
— Eu gritei porque você estava na minha cama!
— Minha cama — ele corrigiu suavemente, voz cheia de paciência irônica. — Tente acompanhar, pequena Vale.
Se eu pudesse me transformar ali mesmo, teria mordido ele feliz da vida.
— Você não tem uma companheira ou namorada ou algo assim? — perguntei, exasperada e incrédula.
— Não. — Ele nem hesitou. — Solteiro. Sem parceira. Sem loba.
Meu lobo andava inquieto dentro de mim, dividido entre irritação e algo muito mais perigoso. Havia uma atração entre nós, primal e inexplicável, e eu odiava — odiava como ele parecia me ler sem nem olhar.
— Descansa — ele disse finalmente. — Você vai precisar.
— Pra quê?
Ele sorriu no meu cabelo.
— Pra sobreviver a mim.
Antes que eu pudesse bolar uma resposta afiada o suficiente para cortar a tensão, uma batida alta ecoou na porta.
O corpo inteiro de Magnus ficou imóvel. O ar mudou — denso, elétrico, letal. Os olhos dele se abriram num estalo, frios e predatórios, sem vestígio do lobo preguiçoso de um instante atrás.
— Fica — sussurrei, pressionando uma mão trêmula no peito dele. — Eu resolvo isso.
Ele não se mexeu. Mas o pulso sob minha palma era um rosnado prestes a escapar. Quem quer que fosse esse homem, não era alguém que o mundo acreditasse estar vivo.
— Por favor — acrescentei. — Me deixa ir.
Depois de uma pausa longa e tensa, o aperto dele afrouxou.
Escorreguei da cama, pernas trêmulas, mas decididas. Meu corpo ainda vibrava com o eco do toque dele, a pele formigando onde o cheiro dele permanecia — fumaça, aço, perigo.
O que quer que estivesse além daquela porta, era mais seguro encarar sozinha do que soltar um lobo como ele da coleira.
A batida voltou, mais forte desta vez.
Atravessei o quarto, parando na porta. Atrás de mim, sentia os olhos dele me observando, a energia dele enrolada, pronta para atacar.
Quando estendi a mão para a maçaneta, a voz dele rolou pelo quarto — baixa, sombria e quase divertida:
— Lembra do que eu disse, pequena Vale. — O tom dele fez um arrepio subir pela minha espinha. — Você pode correr, mas ainda vai ser minha antes do anoitecer.
Não me virei.
Mas a marca do cheiro dele na minha pele queimava do mesmo jeito.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Filha da Alcateia (Aysel)
Comprei moedas e os Capítulos a partir do 96 não foram desbloqueados, site ruim....