Ponto de vista de Riley
Eu não disse nada.
Apenas alcancei a sacola de compras e tirei o vestido.
Vermelho. Alças finas. Corte genérico. O tipo de peça que você encontraria na liquidação de qualquer boutique do centro. Barato, sem graça e completamente esquecível.
Mesmo quando tentavam fingir que se importavam, não se davam ao trabalho de fazer direito.
— Que atencioso, Luna Zara — falei, cada palavra carregada de sarcasmo, arrastando o “atencioso” como se arranhasse vidro.
O sorriso dela vacilou. Ela sabia exatamente o que eu queria dizer.
— Se você não gostar — disse, desconfortável — posso procurar outra coisa. Algo mais do seu gosto.
Joguei o vestido de volta para ela.
— Você percebe que ainda estou coberta de hematomas, certo? Quer que eu apareça em um evento formal parecendo que acabei de sair de uma zona de guerra?
As marcas que Alaric deixou com o cinto já tinham desaparecido, mas as sombras ainda estavam lá: nos meus braços, nas coxas, nas costas. E o pior de tudo: meu ombro ainda exibia cicatrizes avermelhadas e irritadas. Um vestido de alças como aquele deixaria tudo exposto.
Zara piscou, como se só então tivesse se lembrado.
— Eu... eu não pensei...
— Sim, imaginei. Você nunca pensa muito quando se trata de mim.
— Sinto muito, de verdade — murmurou, baixando os olhos. — Eu não estava sendo cuidadosa. Peço desculpas.
— Esquece. Só me dá o dinheiro. Eu mesma compro um vestido, um que realmente sirva.
Meu corpo nunca se recuperou. Anos de desnutrição trancada atrás de portas da cela fizeram isso. Onde eu deveria ter curvas, nunca tive. Eu era pequena, de aparência frágil. Magra de um jeito que gritava negligência.
Todos na Alcateia Ebonclaw tinham genética de capa de revista. Alaric tinha um metro e oitenta e cinco. Kael Vale era ainda mais alto. Zara já tinha sido eleita rainha da beleza na Academia Mooncrest.
E eu?
Mal chegava a um metro e sessenta, com ossos leves como asas de pássaro e nem sinal de curvas. Se não fosse pelo meu rosto, que refletia cada traço esculpido deles, ninguém acreditaria que eu era a herdeira da Ebonclaw.
O vestido que Zara comprou não era para mim, tinha sido feito sob medida para as medidas de Scarlett.
Claro que era.
Ela ficou vermelha do pescoço às orelhas e remexeu dentro da bolsa antes de me estender um cartão.
— Tem... dez mil créditos aqui. Se não for suficiente, é só pedir.
E, com isso, praticamente saiu correndo.
Não perdi tempo. Vesti um moletom e saí da propriedade, pegando um táxi aéreo direto para o Shopping Noite Sombria.
Mas não fui para uma boutique de vestidos.
Entrei em uma alfaiataria.
Formal. Funcional. Cobertura total.
Exatamente o que eu precisava.
A atendente me ajudou a escolher um terno preto ajustado. Levei-o para o provador. Enquanto fechava o botão e me virava para o espelho, algo chamou minha atenção logo além da porta.
Um homem. Jovem. Magro. Bem-arrumado. Sem brasão de alcateia visível, mas, pelo queixo erguido, sapatos polidos e a pasta de couro, trabalhava para alguém importante.
Ele segurava um casaco danificado.
— Você realmente não pode consertar? — perguntou .
O alfaiate fez uma careta.
— É seda Moonfang, senhor. De primeira qualidade. Mas a queimadura é bem no peito. Seria preciso um mestre costureiro para reconstruir as fibras, e mesmo assim não ficaria perfeito.
O homem praguejou baixo.
— Droga. Nosso Alfa tem uma cúpula esta noite... e essa era a peça exclusiva dele.
Ele parecia prestes a chorar.
Olhei para o casaco em suas mãos. Era requintado, com textura rica, feito sob medida para alguém largo nos ombros e com cintura estreita. Eu só tinha visto esse nível de trabalho algumas vezes, sempre em Alfas visitantes da Alcateia Stormridge ou Northhaven.
A seda Moonfang chegava a custar uma pequena fortuna por metro.
E repará-la custaria ainda mais.
Ele se virou e me viu.
Eu ainda estava com o terno preto, tirando fiapos invisíveis da manga. Os ombros largos me davam uma presença que eu não tinha na estrutura frágil. As linhas limpas moldavam minha cintura e faziam minha pele pálida brilhar sob as luzes, como porcelana polida. Ali, eu não parecia uma vítima. Parecia alguém no controle.
Ele se aproximou, o desespero estampado no rosto.
— Você é a alfaiate daqui certo? Pode me ajudar?
Pisquei, surpresa.
— O quê?
— Este casaco. Por favor. Se conseguir arrumar antes do pôr do sol, pago qualquer valor. Qualquer valor mesmo.
Eu deveria ter dito não.
Mas o jeito como ele me olhou, como se eu importasse, como se precisasse de mim, acendeu algo lá no fundo. Algo que eu não sentia há muito tempo.
“Diga sim” sussurrou Nyra, fraca, mas insistente. “Deixe que vejam o que suas mãos podem fazer. Deixe que se lembrem de quem você é.”
— Posso... bordar algo sobre o rasgo? — perguntei, cautelosa.



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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Filha da Alcateia (Aysel)
Comprei moedas e os Capítulos a partir do 96 não foram desbloqueados, site ruim....