Ponto de vista de Magnus
A bengala de Bastien bateu no mármore uma vez, forte como um trovão.
— Você ainda nos odeia, não é?
Eu não respondi. Ódio era palavra pequena demais para o que a linhagem Shadowbane tinha feito à minha mãe, a mim. O velho lobo achava que meu silêncio era culpa, mas era contenção.
Porque se eu deixasse meu lobo falar, a mansão afogaria em sangue.
Eu lembro de cada história, não como contaram, mas como realmente aconteceu.
Ulric Sanchez ‘meu pai’ já fora o segundo filho, imprudente e faminto pelo que nunca foi seu. Meu tio Phelan era o herdeiro legítimo: nobre, brilhante, adorado por Bastien. Sua Luna, Ulva, era o tipo de loba que os anciãos elogiavam serena, diplomática, de linhagem perfeita.
Ulric era diferente. Ele chamava de amor, aquela fraqueza por uma musicista chamada Raya. Ela era delicada, com olhos azuis que tremiam a cada crueldade do nosso mundo. Nunca deveria ter entrado na toca dos lobos.
Ele a encontrou numa apresentação, atraído pelo seu cheiro o mel selvagem da inocência. Disfarçou-se de filho de comerciante, a perseguiu como presa, prometendo paz.
E ela acreditou nele.
Quando descobriu a verdade ‘que ele era um Shadowbane, filho de Bastien’ tentou fugir. Mas Ulric nunca largou o que dizia ser seu. Implorou, ameaçou, até jurou a própria vida para forçar ela a ficar. No fim, ela cedeu. Amor ou pena, ninguém sabia dizer.
Por um tempo, foram felizes. Até Phelan morrer e a linhagem se despedaçar.
Ulric queria mais que uma companheira; queria poder. Mas Raya não era feita para jogos de corte. Ela não entendia como funcionava a dominação, o cheiro da submissão, a batalha de presas por trás de cada sorriso.
Então veio Ivy.
Ela era a parceira de infância de Ulric esperta, implacável, a loba perfeita. Quando voltou das guerras na fronteira, encontrou Ulric preso num casamento que apagava sua ambição. Lembrou ele do que ele havia perdido. Sussurrou em seu ouvido que a grandeza ainda podia ser dele.
Raya os descobriu. Não gritou. Apenas quebrou.
Naquela época, ela já estava grávida de mim.
Meu pai implorou para que ela ficasse, disse que o caso não significava nada. Mas até eu, ainda no ventre, podia sentir a rachadura. O coração dela havia se transformado em cinzas.
Quando tentou partir, ele a trancou na Corte uma gaiola dourada onde nem a luz da lua conseguia chegar.
Os pais dela foram buscá-la uma vez. Os guardas os expulsaram. Naquela noite, numa tempestade, a carruagem deles virou na estrada da montanha. Nunca chegaram em casa.
Depois disso, Raya nunca mais sorriu.
Quando nasci, a mente dela já se desfazia. Ela me chamava de seu lobinho, depois esquecia que tinha dito isso. Às vezes, ficava horas olhando pela janela, sussurrando para fantasmas que só ela podia ouvir.
Ulric não suportava aquilo. Partiu para a fronteira sob o pretexto de expandir a rede comercial da matilha, mas era o jogo de fuga de um covarde, não ambição. Ele nos deixou apodrecer sob o teto de Bastien, cercados por lobos que viam a fraqueza da minha mãe como esporte sangrento.
Fizeram dela o bode expiatório, e de mim o entretenimento.
A propriedade Shadowbane fedia a hierarquia e podridão.
As fêmeas da linhagem, as outras companheiras do meu avô, suas filhas, suas amigas presunçosas, sempre riam alto demais quando meu pai saía. Os servos seguiam seu exemplo, se curvando aos fortes, chutando os fracos. E o velho Alfa Bastien, o patriarca dessa dinastia doente, simplesmente desviava o olhar.
Ele não se importava com o que acontecia a uma companheira ‘manchada’ e seu filho mestiço. Acreditava na lei das presas: os fracos serão devorados.
Minha mãe, Raya, era a beleza em sua forma mais crua. Nenhum lobo podia negar isso. Seu cheiro, ‘flores silvestres suaves com um toque de tristeza’ despertava instintos até na fera mais fria. Por isso o irmão mais novo do meu pai, Conor, começou a rondá-la.
Ele sorria quando ninguém via. Sussurrava quando viam. Até que um dia, encurralada e desesperada, minha mãe fugiu escada abaixo para escapar de suas mãos e caiu. O crânio dela bateu na pedra.
Ninguém a ajudou.
Chamaram ela de sedutora, uma bruxa de sangue humano que atraía os machos da matilha por diversão. A companheira de Conor liderou um grupo de fêmeas que a arrastaram diante de mim ‘eu ainda era um filhote’ e a espancaram até sangrar sob a luz da lua, avisando ela para não ‘seduzir’ outros machos.
Bastien ordenou que suas feridas fossem curadas, não por pena, mas para evitar fofocas que pudessem manchar o brasão da família.
Foi nesse momento que aprendi: na Matilha Shadowbane, misericórdia era luxo reservado aos poderosos.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Filha da Alcateia (Aysel)
Comprei moedas e os Capítulos a partir do 96 não foram desbloqueados, site ruim....