Ponto de vista de Aysel
Eu nunca quis voltar para a Alcateia Moonvale.
Mas quando o próprio Alfa Remus me convocou, dizendo que queria “discutir a posse da casa da Vovó”, eu soube que resistir seria inútil.
Aquela casinha — escondida lá no fundo da floresta, com cheiro de ervas e luz do sol — era o único lugar que alguma vez senti como meu.
Quando eu era filhote, sufocando sob o ar pesado de culpa e pena de Moonvale, a casa da minha avó era meu refúgio.
Todos diziam que eu tinha matado minha tia.
Que eu tinha trazido tragédia para a família Ward e devia minha vida a Celestine.
Mas a Vovó nunca acreditou nisso.
Ela sempre dizia que eu era só uma criança, que nenhum lobo podia controlar o destino, que acidentes não eram crimes. A voz dela cortava o silêncio frio e as broncas intermináveis da mansão Moonvale como um raio de luz rompendo uma tempestade.
Quando meus pais, cheios de culpa, começaram a despejar todo o carinho em Celestine, a Vovó me amava ainda mais ferozmente. Talvez ela já soubesse, mesmo naquela época, que um dia eu precisaria de um lugar seguro quando finalmente me afastasse dessa alcateia amaldiçoada. Ela até anunciou, na frente de todo mundo, que a casa seria minha.
Mas ela morreu tão de repente que não deixou um testamento escrito.
E, agora, legalmente, a escritura estava nas mãos da Luna Evelyn.
Eles diziam que sempre tiveram a intenção de me dar a casa como parte do meu dote, se eu algum dia me casasse.
Eu ri quando ouvi isso. Lobos como eu não são feitos para finais felizes.
Quando cheguei à mansão Moonvale naquela noite, o cheiro antigo da casa me atingiu forte — óleo de cedro, carvalho polido e um leve rastro do perfume de rosas da Celestine.
A criada que abriu a porta congelou por um segundo.
— Senhorita Aysel... — murmurou, olhos arregalados de surpresa.
Eu não a culpo. Ela entrou para a alcateia depois que eu fui embora, e para a maioria dos lobos, Moonvale tinha só uma filha, a radiante Celestine Ward.
Entrei, ignorando o jeito que o olhar dela demorou em mim. Lobos sempre encaram. Não conseguem evitar. Eu parecia demais com o Alfa e a Luna — mesmos olhos dourados, mesmo cabelo escuro com mechas âmbar sob a luz. Eu carregava o sangue de Moonvale em cada traço.
Se não fosse pela minha reputação de “cruel”, minha beleza teria sido o orgulho da alcateia.
Em vez disso, eu me tornei o exemplo para se evitar.
Quando entrei na sala de jantar, Luna Evelyn foi a primeira a se levantar.
— Aysel — cumprimentou calorosamente —, venha. Preparamos seu prato favorito: costelas glaceadas com mel.
Olhei para a mesa, um frio divertimento apertando meu peito.
— Você se enganou. Quem gosta de comida doce é a Celestine.
Eu sempre preferi o picante, fogo que morde de volta. Quando eu era pequena, meu pai e meus irmãos testavam molhos de pimenta comigo, rindo enquanto eu tossia e pedia leite entre as lágrimas.
Isso acabou quando Celestine chegou. Ela nasceu fraca, frágil, uma filhote prematura que precisava de cuidados. A partir dali, todas as refeições em Moonvale eram sem graça por causa dela.
O sorriso de Luna Evelyn vacilou por um instante, mas logo ela o ajeitou.
— Bem, tem muitos pratos hoje à noite. Se não gostar de algo, peço para a cozinha preparar outro prato.
Sentei, com a voz sem emoção:
— Não precisa. Vamos falar logo da casa.
As sobrancelhas do meu pai se franziram.
— Você mal chegou e já está exigindo? Não podemos comer primeiro?
Antes que eu pudesse responder, Lykos desceu correndo as escadas, exalando suor de lobo e cheiro de videogame.
— Ei, você está no lugar errado. Esse é o lugar da irmã Celestine.
A disposição dos assentos sempre foi simbólica — os pais de um lado, os três filhos do outro. Celestine no meio. Meu lugar antigo.
Uma imagem certinha de uma alcateia perfeita.
— Já começaram a marcar cadeiras nesta casa? — perguntei baixinho, recostando. — E se eu decidir sentar aqui mesmo assim?
Celestine, como sempre, fez a santinha.
— Tudo bem, Lykos. Deixa-a sentar. É só uma cadeira.
Lykos me lançou um olhar de raiva, maxilar tenso. Mas a lembrança dos meus ferimentos recentes — notícias correm rápido nas alcateias — o fez hesitar. Ele bufou e se jogou no próprio lugar.
A expressão da Celestine mal mudou, mas eu percebi o lampejo de irritação nos olhos dela.

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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Filha da Alcateia (Aysel)
Comprei moedas e os Capítulos a partir do 96 não foram desbloqueados, site ruim....