O quarto estava mergulhado na noite quando Kris, deitado na cama, mantinha o olhar preso ao teto. Fazia quase duas horas que Alden o deixara em casa, depois da passagem pelo hospital para cuidar dos pontos, mas o sono se recusava a chegar, preferindo se esconder dele.
Para piorar, o ombro recém-dolorido e a saudade insuportável que sentia de Thalassa tornavam impossível relaxar.
Era curioso, o quarto de Thalassa ficava a apenas duas portas do dele e, apesar da distância, quando ela estava em casa, Kris sempre sentia a presença dela, o que lhe trazia certo conforto.
Mas, naquela noite, sabendo que ela não estava no quarto, sentiu-se absurdamente sozinho, perguntando-se se ela pensava nele ou se sentia a falta dele tanto quanto ele sentia dela.
Então, depois de mais uma hora se revirando na cama, uma ideia lhe ocorreu.
Era imprudente, algo que ele sabia que deixaria Thalassa furiosa se descobrisse, mas ele não conseguiu evitar.
E antes que pudesse mudar de ideia, Kris empurrou as cobertas, saiu da cama e caminhou em silêncio até parar diante da porta do quarto de Thalassa.
Ao pousar a mão na maçaneta, ele hesitou por um instante antes de girá-la devagar, até que a porta se abriu e permitiu sua entrada.
O quarto estava mergulhado na escuridão, iluminado apenas pela claridade suave da lua que atravessava as cortinas.
Assim, ele se aproximou da cama, largou o celular no criado-mudo e, deitando-se devagar sobre o colchão, sentiu o rosto afundar no travesseiro no mesmo instante em que o perfume dela, suave, floral e inebriante, invadiu seus sentidos, impregnando todo o ambiente.
Logo depois, envolveu o travesseiro com os braços e afundou o rosto nele, consciente de que, na ausência dela, teria de se contentar com aquilo por enquanto.
E embora no próprio quarto não tivesse conseguido pegar no sono, naquela cama envolta pelo aroma dela, os olhos se fecharam aos poucos até que o descanso enfim o alcançou.
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Na manhã seguinte, Kris foi despertado bruscamente pelo toque agudo do celular tocando. Sonolento, piscou algumas vezes antes de olhar para a tela, e o corpo ficou tenso ao ver o nome que aparecia.
Sua mãe.
O polegar pairou sobre o botão de atender por alguns segundos até que finalmente atendeu.
— Mãe?
— Kris! Finalmente! — A voz cortante dela soou do outro lado. — Até que enfim você atendeu... Eu estava desesperada de preocupação! Disseram que você tinha sido baleado!
Kris franziu o cenho, sentando-se na cama.
— Como a senhora soube?
Até onde sabia, tinham garantido que a polícia mantivesse tudo em sigilo para não ganhar atenção da mídia.
— Isso importa? — Ela retrucou. — Kris, você me odeia tanto assim a ponto de esconder algo assim de mim?
Kris soltou um longo suspiro, passando a mão pelos cabelos.
— É claro que não te odeio, só não queria te preocupar.
— Como se não atender minhas ligações fosse me preocupar menos… — Ela resmungou, e depois de uma breve pausa acrescentou: — A Thalassa teve algo a ver com você ter levado o tiro, não foi? Aquela mulher é perigosa, Kris, quando você vai perceber isso?
— Não começa, mãe. — Kris apertou os lábios. — A Thalassa não teve nada a ver com isso, não foi culpa dela. — Ele suspirou. — Por que a senhora ligou?
O tom dela mudou, tornando-se mais desesperado.
Houve um breve silêncio antes dela falar de novo.
— Você deveria ter aparecido antes para se desculpar, meu filho. A última vez que te vi parece ter sido há séculos. Ainda assim, eu vou te perdoar, Kris... Mas quero que aceite uma condição.
Kris prendeu a respiração.
— Qual condição?
— Você precisa garantir que a verdade venha à tona. — Disse ela com firmeza. — A minha empresa está prestes a falir por causa das mentiras que inventaram a meu respeito. Mas, se o público descobrir que a coleção da Thalassa foi sabotada por alguém próximo a ela, e não por mim, ainda posso salvar a empresa. Você precisa garantir que ela conte a verdade.
Imóvel, Kris sentiu a pressão do pedido recair sobre ele, mas, quando estava prestes a responder, o som de passos ecoou e, em seguida, a voz de Thalassa se fez ouvir.
— Mãe, desculpa… Mas preciso desligar. — Kris disse, encerrando a ligação de imediato.
O pânico tomou conta dele, porque se Thalassa descobrisse que ele dormiu no quarto dela, certamente o expulsaria da casa por invadir sua privacidade.
Então, rapidamente, ele alisou a cama, arrumou os travesseiros o melhor que pôde e correu até a porta da varanda, saindo para lá no exato momento em que a porta do quarto se abriu.
Espiando pela fresta da porta de vidro, viu Thalassa entrar com o celular colado ao ouvido.
— Eu vou te ver em breve, eu prometo. — Ela disse suavemente ao telefone e, depois de uma pausa, riu baixinho antes de acrescentar: — Sim, eu juro... Eu te amo também, Alex.
Kris sentiu como se tivesse levado uma facada no peito. “Eu também te amo?
Quem diabos era Alex?”

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