Millie despertou lentamente do sono profundo e, abrindo os olhos com dificuldade, se enrijeceu ao perceber que não estava em seu próprio quarto.
O ambiente era diferente e, mais do que isso, o ronco alto de Francis, que sempre a irritava e aterrorizava ao mesmo tempo, estava ausente.
E de imediato, as memórias da noite anterior voltaram como uma enxurrada: Francis a flagrando conversando com Zeke ao telefone, explodindo em fúria e começando a agredi-la; a súbita intervenção de Zeke, levando-a para sua casa; e seu colapso quando ele perguntou por que queria voltar para Francis.
Ele a segurara nos braços enquanto chorava, e essa fora a última coisa de que se lembrava, de modo que se perguntava como tinha ido parar naquele quarto e naquela cama.
Ao se virar de costas, ela estremeceu com a dor latejante, embora notasse que não era tão intensa quanto da primeira vez ou das muitas outras. Sempre que Francis se irritava, suas costas eram o alvo, pois ele jamais batia no rosto ou nos braços, escolhendo apenas lugares que pudessem ser escondidos sob os vestidos dela.
Então, uma batida suave soou na porta, e o coração de Millie disparou ao reconhecer a voz tranquila de Zeke atravessando-a.
— Millie, você está acordada? Posso entrar?
Engolindo em seco, ela se sentou e percebeu que ainda estava com as roupas da noite anterior, passando depressa a mão pelos cabelos para tentar ajeitá-los antes de responder:
— Sim.
Um instante depois, Zeke entrou carregando uma bandeja com panquecas cobertas por mel e um copo de suco de laranja, cujo aroma doce e cítrico a envolveu antes mesmo de ele se aproximar.
— Bom dia. Café da manhã, servido quentinho na cama.
Era um gesto inocente, e ela sabia que ele não tinha outra intenção além da que demonstrava, mas ainda assim o calor subiu às suas bochechas e ela se sentiu tola por corar naquela situação.
Ao chegar perto, Zeke colocou a bandeja sobre as pernas dela.
— Não sou o melhor cozinheiro, mas minha irmã jura que minhas panquecas são incríveis.
Millie conseguiu esboçar um sorriso.
— Tenho certeza de que são.
Para sua surpresa, Zeke sentou-se ao lado dela na cama, indicando com um gesto que começasse a comer, e Millie obedeceu.
— Você não estava mentindo. — Comentou sem conseguir evitar.
— Eu disse, não disse? — Retrucou ele com um sorriso, antes de assumir uma expressão mais séria. — E então, como você está? Ontem à noite acabou desmaiando nos meus braços.
Millie se enrijeceu, desviando o foco para a comida.
— Me desculpe por isso. Já me sinto melhor agora.
— Que bom. — Ele assentiu. — Este é o quarto da Luisa, então você pode usar as roupas dela que estão no closet, já que, como são praticamente do mesmo tamanho, devem servir bem. Eu vou trazer uma toalha limpa e uma escova de dentes. Quando terminar a refeição, se arrume que eu a levo à delegacia.
O garfo escorregou da mão de Millie, batendo no prato quando ela ergueu o rosto num sobressalto.
— O que você disse?
— Eu disse que, depois que terminar, vou levá-la à delegacia para registrar queixa contra o Francis.

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