Na manhã seguinte, sentado na cama estreita e gelada da cela, Kris manteve o olhar perdido no chão, sem ter pregado os olhos a noite inteira. Mas, embora soubesse disso, não sentia os efeitos, porque continuava entorpecido, ciente de que aquele torpor era apenas o mecanismo do corpo para poupá-lo da dor devastadora, ainda que por instantes.
— Miller, sua primeira visita chegou. — A voz de um policial cortou o silêncio.
Kris ergueu os olhos e viu Alden do outro lado das grades, com o rosto marcado por preocupação e incredulidade.
— Apareci aqui ontem à noite, só que não permitiram a entrada porque já estava tarde. — Explicou, aproximando as mãos das barras. — Por que não me ligou, Kris?
Kris soltou o ar, voltando a olhar para o chão.
— Como você soube?
Alden hesitou, mudando o peso de um pé para o outro.
— Você está em todos os noticiários, Kris… Estão falando disso em todo lugar. — Fez uma pausa antes de acrescentar: — Alguns até estão do seu lado, mas a maioria anda comparando você à sua mãe e dizendo que o crime corre na família Miller.
Kris bufou, com os lábios se contorcendo em um sorriso amargo.
— Eles têm razão.
Alden franziu o cenho.
— Por favor, não diga isso…
— É verdade. — Murmurou Kris, com a voz oca. — Eu matei ele… Eu matei o Henry.
Alden balançou a cabeça.
— Não, você não matou. O Henry ainda está vivo, em estado crítico, mas pode sobreviver. Mas o que exatamente ele fez para deixá-lo fora de si, a ponto de você espancá-lo daquela maneira? Ele chegou a falar da Lassa?
De olhos fechados e com o maxilar tenso, Kris desejou que tudo fosse tão simples quanto pareceria, como se tivesse sido apenas uma provocação de Henry, forte o bastante para levá-lo a esmurrá-lo até quebrar seus dentes.
Enquanto isso, Alden estreitou o olhar.
— Não vai me contar? Por que você foi atrás dele daquela forma?
Kris ergueu o olhar para o amigo, sentindo a garganta se fechar, e, ao falar, a voz mal passou de um sussurro abafado:
— O Henry é o pai da Tessa…
Alden piscou, atônito.
— O quê? Como… Como isso é possível?
Kris riu sem humor, balançando a cabeça.
— O Henry e a Karen… Eles me fizeram de idiota. Ela já dormia com ele antes de me envolver nessa farsa. Aliás, para ser exato, nós nunca tivemos nada, ela só me fez acreditar que tivemos e aproveitou para me convencer de que eu era responsável pela gravidez.
A respiração dele falhou.
— A Tessa não é minha filha. — Sussurrou, quando a dormência cedeu lugar à dor lancinante. — A princesinha… Não é minha filha.
Alden ficou em silêncio, absorvendo cada palavra, e chegou a abrir a boca sem emitir som algum por alguns segundos, até que, por fim, balançou a cabeça em total descrença.
— Não posso acreditar que o Henry tenha traído desse jeito, é simplesmente insano… Sinto muito, Kris.
Kris soltou outra risada amarga, carregada de ironia.

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