O corpo de Kris enrijeceu diante das palavras de Henry, com a mandíbula se contraindo enquanto as mãos se fechavam em punhos ao lado do corpo, e a voz dele, baixa e gélida, cortou o ar pesado como uma lâmina.
— O que foi que você acabou de dizer?
O sorriso de Henry se alargou, com o tom carregado de arrogância.
— Você me ouviu, Miller. Vim buscar minha filha.
O ambiente ficou tomado por um silêncio total, interrompido apenas pela respiração leve de Tessa, que se prendia a Kris com força, e o olhar de Henry logo encontrou a menina escondida atrás da perna do pai, assumindo em seguida um tom de doçura fingida.
— Oi, docinho. — Disse ele, dando um passo à frente. — Você se lembra de mim, não é? Eu nunca te contei antes, mas eu sou o seu papai. Você é a minha filha.
Tessa ficou imóvel, com as pequenas mãos apertando com mais força a calça de Kris, e sua vozinha, frágil, porém desafiadora, rompeu o silêncio.
— Isso não é verdade! Meu papai é ele! — Ela enterrou o rosto contra a perna de Kris.
Nesse momento, Thalassa deu um passo à frente, com o rosto tomado por uma fúria fria, enquanto se dirigia aos policiais que estavam atrás de Henry.
— O que está acontecendo aqui? O que vocês estão fazendo na minha casa?
Um dos oficiais exibiu o distintivo.
— Recebemos uma denúncia do Sr. Henry Fitz. Ele afirmou que a filha dele está sendo mantida aqui contra a vontade e corre perigo.
Kris soltou uma risada seca e sem humor.
— Perigo? — Repetiu, cuspindo as palavras. — O único perigo nesta sala é o homem que vocês trouxeram até aqui. Essa garotinha é minha filha, e o meu nome consta na certidão de nascimento dela. Fui eu quem cuidou, criou e amou essa criança em todos os dias da vida dela. Algum de vocês sequer se preocupou em verificar os fatos antes de seguir esse lunático até a minha casa feito um bando de tolos?
O rosto do policial se endureceu, mas ele manteve o tom controlado.
— Não há necessidade de insultos, Sr. Miller. — Respondeu com firmeza. — Suponha que fosse o senhor quem viesse alertar que sua filha estava em perigo. Acharia justo que a polícia pedisse prova de paternidade antes de investigar?
Kris abriu a boca para retrucar, mas o oficial virou-se para Henry.
— Sr. Fitz. — Chamou, num tom mais incisivo. — O que o Sr. Miller afirmou é verdade? Ele é o pai legal da menina?
Henry endireitou a postura, alisando a camisa com um ar de falsa confiança.
— Apenas legalmente. — Respondeu com um encolher de ombros. — Mas eu sou o pai biológico. Isso não significa nada? Eu tenho direitos. Já entrei com o pedido de guarda e tenho o teste de DNA para provar.
Os olhos do policial se estreitaram, com a paciência visivelmente se esgotando.
— Ser o pai biológico não significa nada se o Sr. Miller é o guardião legal e tem a guarda completa. — Afirmou, frio. — E, pelo que vemos, a menina claramente não está em perigo algum. O senhor nos fez perder tempo.
A voz dele tornou-se cortante.
— Em situações habituais, o senhor seria enquadrado por falsa denúncia. Porém, reconhecemos que o assunto é de natureza familiar e precisa ser resolvido judicialmente.
— Fico ofendido por me achar tão mesquinho. — Comentou com sarcasmo. — É óbvio que me importo com a minha princesinha. Foram você e a Karen que me tiraram a chance de ser o pai dela.
Os punhos de Kris se cerraram, e Henry continuou, com o sorriso se ampliando.
— O juiz vai adorar ouvir essa história, não acha?
O olhar de Kris permaneceu firme sobre ele, enquanto o silêncio denso se instalava.
Em seguida, Henry ergueu uma sobrancelha, assumindo um tom de voz quase indiferente.
— Mas vou te dar uma opção. — Falou com suavidade venenosa. — Admito que você fez um bom trabalho cuidando da minha cria todos esses anos, então vou facilitar as coisas para você.
— Finalmente cansou de esconder quem realmente é, não foi? — Retrucou Kris, com desprezo.
O sorriso de Henry se tornou mais afiado.
— Fiquei sabendo da herança da Tessa. Cento e vinte milhões de reais, certo? Aposto que tem levado uma vida bem confortável com esse dinheiro, não é?
— Essa herança é da Tessa. — Rosnou Kris. — Está intocada e vai continuar assim até o dia em que ela puder reivindicá-la. Eu não sou como você.
Henry revirou os olhos.
— Poupe-me desse discurso moralista. É simples: quero que me dê oito vezes o valor dessa herança. Me entregue um bilhão de reais e eu retiro o processo de guarda.

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