No quarto de Tessa, Kris se encostou no batente da porta e ficou olhando a pequena figura na cama, notando a respiração calma e contínua que movia o peito sob o edredom rosa e fofo.
Momentos antes, ela o agarrara usando toda força, com as mãozinhas cravadas em sua camisa, implorando repetidas vezes que ele prometesse ser o seu papai, o único, e que jamais deixaria o homem mau levá-la embora.
Agora, ela dormia tranquila, com a expressão serena e leve, como se o peso dos medos tivesse desaparecido depois das promessas que ele lhe fizera.
O som de passos suaves atrás dele o arrancou dos pensamentos, e ele se virou, encontrando Thalassa parada na entrada, com um leve sorriso nos lábios.
— Está feito. — Disse ela, aproximando-se. — Aquele covarde está na cadeia.
— Ótimo. — Kris cerrou os dentes, sentindo uma onda de alívio percorrer-lhe o corpo, pois aquele canalha finalmente estava onde merecia, embora ainda houvesse algo que o deixava confuso.
— Por que agora? — Perguntou. — Você tinha provas contra ele esse tempo todo. Eu poderia tê-las usado antes mesmo de ele pensar em vir até aqui nos chantagear.
Thalassa deu de ombros com naturalidade.
— Porque eu dei minha palavra. Lá no hospital, quando ele concordou em retirar as acusações contra você, eu prometi que não levaria as provas à polícia.
A voz dela ganhou firmeza à medida que falava.
— Percebi, enfim, que os juramentos dados a quem trai não têm peso nenhum. Henry jamais mereceu minha lealdade, e a única maneira de proteger Tessa é tirando-o completamente do nosso caminho.
Kris a observou, sentindo um misto de admiração e gratidão se espalhar em seu peito.
— Você fez tudo isso pela Tessa… — Murmurou, aproximando-se ainda mais. Ele a envolveu com o braço e a puxou contra si, sentindo o calor do corpo dela. — Obrigado, Lassa. Obrigado por amar tanto a minha filha.
Thalassa balançou a cabeça, com os lábios se curvando em um sorriso suave.
— Correção. — Afirmou. — Nossa filha.
Kris riu baixinho, com a tensão se dissipando.
— Claro. Nossa filhinha.
— Mal posso esperar para o Alex conhecer a irmã. — Comentou Thalassa, deixando o sorriso se alargar de forma espontânea.
Os olhos de Kris se iluminaram de entusiasmo.
— Nem eu. Está tudo pronto para amanhã. Eu já providenciei o passaporte da Tessa. Vai ser o primeiro voo dela... — Ele parou de falar ao notar a expressão envergonhada no rosto de Thalassa, o que o fez estreitar os olhos em curiosidade.
— O quê? — Perguntou, divertido.
Thalassa mordeu os lábios, com os olhos brilhando de malícia.
— Nada. — Respondeu com um sorriso misterioso, inclinando-se para beijá-lo.
No instante em que os lábios se separaram, uma tosse suave interrompeu o momento, fazendo os dois se virarem e verem Bridget parada no fim do corredor, com uma expressão séria, mas gentil.
— O pessoal do crematório chegou. — Avisou ela. — Trouxeram as cinzas da Sra. Rita e da Karen juntas, como os senhores pediram.
O clima mudou de imediato, e o peso da realidade recaiu sobre os dois, fazendo Thalassa apenas assentir, com a voz firme apesar da emoção que cintilava em seu olhar.
— Obrigada, Bridget.
Eles a seguiram até o andar inferior, onde um homem de terno escuro os aguardava junto à mesa central da sala de estar. Sobre o tampo de madeira reluzente, duas urnas brilhavam, refletindo suavemente a luz do ambiente.
Os passos de Thalassa vacilaram ao se aproximar, e sua respiração ficou presa, enquanto o homem lhe entregava uma caneta para assinar os papéis, que ela concluiu com as mãos trêmulas.
— Obrigada. — Sussurrou, quando ele se virou para ir embora.

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