Eu não conseguia me transformar antes porque era fraca demais. Agora que sentia a verdadeira força dela fluindo através de mim. E mesmo aquilo era apenas uma fração do que ainda se escondia dentro dela. Eu finalmente entendia. Havia algo dentro de mim, algo que eu carregava desde bebê, que vinha reprimindo meu poder.
Minha loba não sabia exatamente o que era, mas aquilo tinha impedido minha transformação muito além da idade em que a maioria dos lobos se transformava. Só recentemente minha própria força havia crescido o bastante para começar a superar esse bloqueio.
“Mas o que poderia ter causado uma coisa dessas?”
“Não sei”, minha loba respondeu, e naquelas palavras havia toda a tristeza e raiva acumuladas por termos sido separadas uma da outra por tanto tempo. “Talvez deva perguntar à sua mãe.”
“Vou perguntar”, prometi. “Mas daqui a pouco. Quero aproveitar isso.”
Estar em forma de loba era diferente de tudo que eu já tinha imaginado. Minha audição e meu olfato estavam muito mais aguçados, e até a maneira como ela processava o que via era diferente. Os movimentos pareciam mais intensos, enquanto as cores ficavam mais apagadas.
Paramos junto a um pequeno lago, onde ela abaixou a cabeça para beber água.
Ela era linda. Sua pelagem passava do prateado ao dourado nas extremidades do corpo, e seus olhos eram grandes luas pálidas em um rosto majestoso.
Por fim, depois do que pareceram horas correndo pela floresta, celebrando a alegria de estarmos unidas enfim, chegamos de volta à borda da mata, perto da casa da alcateia. Senti uma última onda de amor vindo da minha loba antes que ela recuasse para dentro da minha mente, e a estranha transformação me devolveu à forma humana.
Foi difícil conter a euforia enquanto eu subia correndo as escadas até o quarto da minha mãe. Depois de tantos anos tentando realizar aquilo, finalmente conseguir era uma descarga de adrenalina como nenhuma outra.
Mas a transformação também trouxe novas perguntas.
Entrei no quarto da minha mãe num rompante.
— Mãe! — Joguei-me na cadeira ao lado da cama e segurei as mãos dela entre as minhas. — Você sabe se me deram alguma coisa quando eu era criança? Alguma... Poção, talvez? Algo que pudesse ter bloqueado minha capacidade de me transformar por tanto tempo?
Minha mãe pareceu assustada, talvez pela pergunta, talvez pela minha animação repentina.
— Você... — Os olhos dela percorreram meu rosto. — Conversou com Gideon?
— O quê? Não! — Respondi, irritada por ela estar mudando de assunto. — Por favor, mãe, isso é importante. Alguma coisa que tenham me dado e que pudesse ter reprimido minha loba até agora?
Mas era como se ela tivesse se recolhido para dentro de si. Apenas continuou balançando a cabeça, dizendo que não sabia. Depois, disse que estava cansada.
— Vá falar com Gideon, minha filha. Chega de perguntas sobre o passado. Ele é o seu futuro agora...
Irritada, levantei-me da beira da cama, sem querer comprometer ainda mais sua saúde. Em vez disso, atravessei a propriedade da alcateia atrás do meu marido. Encontrei-o jantando na sala de refeições privativa, e ele pareceu tão satisfeito ao me ver que, por um instante, esqueci minha irritação.

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