Ponto de vista de Avery
Nos dias seguintes, não saí do lado da minha mãe. O período que ela passou na masmorra do Rei dos Renegados a deixou fraca, desnutrida e envelhecida de um jeito doloroso de ver. Eu confiava nos curandeiros da alcateia, e minha presença parecia trazer algum alívio, fosse por causa da minha magia de cura ou apenas pela alegria que surgia no rosto dela sempre que me via ao lado da cama.
— Você não precisa ficar aqui. — Ela disse, dando leves tapinhas na minha mão enquanto eu me acomodava com uma caneca de chá para retomar minha vigília ao seu lado.
— E onde mas eu estaria? — Perguntei, seca. — Você é minha mãe, e eu gosto de pensar que precisa de mim.
— Ah, mas ele também não precisa de você? — Ela ergueu as sobrancelhas de forma significativa, e eu suspirei.
Eu a amava, e estava radiante por tê-la de volta, mas não senti falta daquela visão mais tradicional que ela tinha sobre a hierarquia da alcateia.
Para uma loba Ômega como minha mãe, não havia honra maior do que servir a um Alfa. Tudo nela tinha reforçado essa visão de mundo por tanto tempo que Alfas e Lunas eram quase como realeza aos seus olhos. Ela não conseguia sequer imaginar evitar um Alfa, muito menos desobedecê-lo, e colocaria com alegria o próprio bem-estar e suas necessidades abaixo das deles.
Eu sabia que ela era altruísta desse jeito e, até certo ponto, admirava isso nela. Era uma pessoa genuinamente bondosa, incapaz de guardar rancor.
Mas também era por isso que tinha sido maltratada a vida inteira. Talvez, se vivêssemos em um mundo mais gentil e melhor, eu conseguisse enxergar essas características como virtudes, não como fraquezas. Mas eu já tinha visto o que havia por trás da cortina. Agora eu mesma era uma Luna, e sabia muito bem o quanto aqueles que estavam no topo podiam ser falhos e egoístas.
— Você deveria passar um tempo com ele. Ele parece estar se esforçando de verdade para conquistar seu afeto, minha filha. — Os olhos da minha mãe se enrugaram com diversão enquanto ela olhava ao redor do quarto cheio de flores que Gideon havia enviado para “incentivar sua recuperação”.
— Mesmo que esteja, não é nada menos do que você merece. — Respondi, com uma expressão séria.
Para ser sincera, o gesto tinha me tocado um pouco. As flores eram realmente lindas, mas eu ainda estava processando tudo que Gideon tinha dito na noite do resgate dela.
— Pense nisso, filha. Ele é um Alfa poderoso e, pelo que parece, mais do que isso, quer tentar conquistar seu coração. Poucos fariam esse esforço, e ele tem muito a oferecer.
Estremeci diante da avaliação honesta dela. Era tão errado assim esperar que um homem achasse que eu valia o esforço?
— Não estou interessada no que Gideon tem a me oferecer. Só me importo que você melhore. — Falei, tentando encerrar aquele assunto.

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