Ponto de vista de Avery
Ao amanhecer, eu já sabia o que precisava fazer.
Não conseguiria escapar sozinha. Não com guardas vigiando cada movimento meu, não com Asher no meu encalço, não com aquele anel de prata mantendo minha loba reprimida.
Eu precisava de ajuda.
E a única pessoa capaz de me ajudar era Gideon.
Eu odiava que, depois de tudo, ainda precisasse dele. Mas aquilo já não tinha mais nada a ver com amor. Precisávamos sobreviver.
Nós dois.
Apesar do que ele tinha dito, eu não queria que morresse ali. Não conseguia simplesmente abandoná-lo.
Quando escapássemos, eu buscaria minha mãe e desapareceria nas terras humanas. Gideon teria sua liberdade, e eu teria a minha. Nunca mais precisaríamos nos ver.
Mas, antes disso, eu precisava encontrar um jeito de tirar nós dois dali.
Passei a manhã andando de um lado para o outro na tenda, repassando o plano na cabeça.
Eu precisava de angélica.
Era a única forma de provocar a transformação de Gideon. A planta forçaria seu lobo a romper o efeito da prata e lhe daria força suficiente para reagir.
Angélica era bastante comum naquela região. Eu tinha certeza de que conseguiria encontrar. Bastava uma única flor para despertar o sangue demoníaco.
Era perigoso.
Imprudente.
Mas também era nossa única chance de dar o fora daquele lugar maldito.
Por volta do meio-dia, chamei meu guarda. Ele apareceu na entrada com cara de tédio, limpando a sujeira debaixo das unhas com uma faquinha.
— O que foi? — Perguntou, sem nem olhar para mim.
— Preciso colher mais algumas ervas. — Falei.
Coloquei a mão sobre a barriga.
— Para o bebê. A médica disse que eu deveria tomar certas plantas para garantir uma gravidez saudável.
O guarda franziu a testa e me olhou por baixo das sobrancelhas.
— Você acabou de sair ontem.
— Não consegui pegar o suficiente.
Arregalei os olhos, tentando parecer indefesa.
— Por favor. Estou preocupada com o bebê. Se alguma coisa acontecer porque não consegui as ervas certas...
Ele suspirou.
— Está bem. Mas não vamos longe. Já estou cansado de seguir você o dia inteiro quando tenho coisas muito melhores para fazer.
Claro...
Como ficar encarando mulheres e beber até ficar idiota.
Mas forcei um sorriso.
— Claro.
Ele me conduziu para fora da tenda e em direção à extremidade do acampamento. Carreguei minha cesta, mantendo a cabeça baixa enquanto passávamos pelas jaulas.
Gideon ainda estava lá, largado contra as barras.
Não levantou a cabeça quando passei.
Ótimo.
Eu também não queria olhar para ele naquele momento.
Entramos na floresta, e imediatamente comecei a examinar a vegetação. O guarda permaneceu perto, observando-me com desconfiança. Ignorei-o e me ajoelhei ao lado de um tufo de camomila, fingindo examinar as flores.
— Quanto tempo isso vai demorar? — Perguntou.
— Não muito.
Arranquei alguns talos e os coloquei na cesta.
— Só preciso de mais algumas coisas.
Avancei um pouco mais pela floresta, procurando.
Onde estava?
Angélica costumava crescer perto de água, em áreas sombreadas onde o solo permanecia úmido. Avisei um riacho mais adiante e desviei naquela direção.
O guarda veio atrás, resmungando alguma coisa.
Por fim, encontrei um grupo de flores brancas crescendo às margens do riacho.
Talos altos.
Folhas recortadas.
Angélica.
Ajoelhei-me ao lado delas e arranquei vários caules, garantindo que levasse algumas flores boas.
Perfeito.
Coloquei os talos na cesta e os cobri com a camomila.
O guarda estava olhando alguma coisa entre as árvores, distraído.
Aproveitei a oportunidade para procurar qualquer outra coisa que pudesse ser útil.
Eu já estava prestes a ir embora quando avistei uma planta rasteira, com bagas roxo-escuras e flores em formato de sino.
Congelei.
Beladona.

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