Ponto de vista de Avery
As janelas da sala de reuniões davam para a cidade. Àquela hora, os prédios ao redor refletiam a luz do sol da tarde, e as fachadas metálicas faziam os raios brilharem de um jeito quase ofuscante.
Passei as mãos pelo rosto e encarei o relatório diante de mim.
“Proposta Comercial: Alcateia Evergreen.”
A última coisa que eu queria na vida era fazer negócios com uma alcateia de lobisomens.
Já fazia dez anos desde que eu tinha chegado às terras humanas apenas com a roupa do corpo, a mão da minha mãe entrelaçada à minha e um bebê crescendo dentro da barriga.
Agora, eu era dona de uma das empresas de suplementos que mais cresciam no país.
— Avery? — Minha assistente, Claire, limpou a garganta.
Ela estava ao lado do projetor, com o controle remoto na mão.
— Posso continuar a apresentação?
Assenti.
— Pode.
Claire avançou pelos slides.
Projeções de vendas.
Expansão de mercado.
Redes de distribuição.
Os números eram bons.
Mais do que bons.
Estávamos a caminho de dobrar nossa receita naquele ano.
Tudo por causa de uma única planta.
Eu a tinha criado cinco anos antes, quase por impulso, ao inserir meu próprio DNA nas sementes de uma erva medicinal comum. Queria descobrir se meus poderes de cura Lycan poderiam ser transmitidos à planta.
O resultado foi extraordinário.
A planta conseguia acelerar a recuperação de humanos. Feridas fechavam mais rápido. Infecções desapareciam praticamente da noite para o dia. Até vírus que normalmente levavam semanas para serem superados sumiam em poucos dias.
Eu a chamei de Raiz Lycan.
Todo mundo achava que era apenas um nome interessante.
Ninguém conhecia a verdadeira origem do DNA que tornava aquilo possível.
O suplemento se tornou um sucesso imediatamente e, ao longo dos cinco anos seguintes, construiu meu legado. Minha empresa virou um nome conhecido em todas as terras humanas.
Infelizmente, ficou conhecida demais.
Agora, as alcateias estavam começando a se interessar, e eu acabava de receber minha primeira proposta comercial de um Alfa.
— É uma oportunidade enorme. — Claire disse. — Se aceitarmos a proposta do Alfa, estamos falando de um aumento de trinta por cento na receita. Talvez até mais.
Encarei os papéis à minha frente e suspirei.
Trabalhar com lobisomens significava correr o risco de ser descoberta.
Significava a possibilidade de encontrar alguém da minha antiga vida.
Alguém que pudesse me reconhecer.
Alguém como Gideon.
— Não sei. — Falei. — Não gosto de trabalhar com lobisomens.
Claire franziu a testa.
— Você já disse isso antes. Mas esta é uma oportunidade incrível. Não dá para continuar evitando o mercado dos lobisomens para sempre.
— Dá, se eu quiser.
— Avery.
Claire deixou o controle remoto de lado e se sentou à minha frente.
— Eu sei que você tem seus motivos. Nunca pressionei para saber quais são. Mas isso é grande demais para deixar passar. Estamos falando de milhões de dólares. Expansão para novos mercados. Contratos de longo prazo.
É claro que ela pensava assim.
Claire era jovem, ambiciosa e humana.
Ela olhava primeiro para os números.
Nas terras humanas, ter tanto dinheiro assim parecia ser a coisa mais importante do mundo.
Ao longo dos últimos dez anos, dinheiro também tinha se tornado importante para mim.
Pelo futuro do meu filho.
Mas aquilo ainda era arriscado e trazia de volta uma vida que eu tinha trabalhado muito para enterrar.
— Vou pensar. — Falei depois de um momento.
Claire suspirou, mas assentiu.
— É só isso que estou pedindo.
Ela juntou suas coisas e saiu.
Fiquei sozinha na sala de reuniões, olhando para a cidade.
Aquela não era a vida que eu imaginava construir dez anos antes.
Eu planejava comprar uma casinha.
Morar longe de tudo.
Cultivar um jardim.
Criar meu filho em paz.
Mas a vida tinha outros planos.
Nos primeiros anos, consegui emprego como herbalista, trabalhando para uma senhora chamada Margaret, que tinha uma pequena loja.
Ela me ensinou a preparar remédios e a identificar os problemas das pessoas praticamente só de olhar para elas.
Eu era boa.
Mais do que boa.
Eu era excelente.
Em dois anos, já tinha superado Margaret.
Quando ela se aposentou, deixou a loja para mim.
Eu expandi.

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