O cansaço me consumia infiltrando-se em cada músculo, cada osso, enquanto eu me arrastava de volta para casa após a luta. Meu corpo estava pesado, não só pelas feridas que meu corpo curava, mas pela culpa que roía meu peito. Eu não conseguia parar de pensar nela, Alina despedaçada, os olhos inchados de tanto chorar, o corpo tremendo com os soluços que pareciam vir do fundo de sua alma.
A vi se desfazer ao lado da cama do pai, gritando, implorando por um milagre que não viria. E eu? A abandonei. Deixei ela sozinha na dor mais profunda que uma pessoa pode sentir. Me sentia um merda por não ter ficado, por não ter ignorado o chamado do conselho e ficado ao lado dela, embalando-a até que o choro se transformasse em sono exausto.
Mas era o meu dever como alfa, a alcatéia precisava de mim, tinha que exercer a minha liderança especialmente em tempos como aquele, que todo o povo estava assustado, eu não podia falhar com eles como falhei com aqueles jovens na fronteira.
Ainda assim, a culpa pesava dentro de mim me puxando para baixo, me fazendo questionar se eu era mesmo o alfa que eles mereciam, um homem dividido.
A luta havia sido intensa, um caos de garras, tiros e sangue que ainda grudava na minha pele como uma segunda camada. Nós alcançamos o comboio dos humanos no meio da noite, uma linha de veículos pretos serpenteando pela estrada escura. Meu lobo uivou de fúria enquanto eu saltava do carro me transformando no ar noturno carregado do cheiro de medo e metal.
Os humanos eram treinados, armados com rifles que cuspiam balas de prata que queimavam como fogo ao rasgar a carne e nos envenenava aos poucos se ficasse alojada em nosso corpo.
Eu me joguei no meio deles, dilacerando o primeiro que vi com um golpe de garra que abriu sua garganta em um jorro vermelho.
— Porra, isso é por eles. — pensei, com o ódio me cegando enquanto uma bala acertava meu ombro.
Eu ignorei, rosnando, e avancei, cravando os dentes no braço de outro, o osso estalando sob minha mandíbula. Meus betas me seguiam, uivando em uníssono, e enquanto nós os massacramos, rasgando tendões, quebrando ossos, fazendo o chão se transformar em um lamaçal de sangue e vísceras. Outra bala me acertou na coxa, o impacto me jogou para trás, mas eu me levantei com a raiva me impulsionando.
— Vocês não vão levar mais nenhum dos nossos! — jurei, dilacerando o peito de um homem que gritava por misericórdia mas não viria. Eles não demonstraram misericórdia para os garotos que mataram, nem para aqueles dois que estavam levando aos laboratórios.
O cheiro de pólvora e sangue enchia o ar, os gritos dos humanos se misturando aos rosnados dos meus, e eu sentia cada ferida como um lembrete: isso era o que os humanos faziam. Caçavam, destruíam, e eu os odiava por isso. Mas no meio do caos, a imagem de Alina chorando invadiu minha mente. Ela era humana, mas não como eles, o pensamento me invadiu no mesmo instante que eu desviei de uma bala que raspou minha orelha, fazendo o sangue escorrer quente pelo pescoço.
Porra, por quê ela tinha que ser diferente? Seria tão mais fácil se ela fosse uma caixa sem coração.
No fim, nós resgatamos os dois lobos com vida, e os humanos ficaram na estrada, seus corpos mutilados em um testemunho da nossa fúria. Quando voltamos à reserva éramos um grupo de vozes altas ecoando, conversas animadas, sorrisos e comemoração pela vitória e pela volta dos capturados.
— Vem, alfa! — gritou Renn, erguendo uma garrafa de uísque com um sorriso selvagem. — Vamos beber pra comemorar! Matamos aqueles desgraçados!
— É isso aí, Kaian! — ecoou Torren, outro beta, batendo no ombro de Renn. — Sem você, aqueles dois estariam perdidos. Vamos brindar aos nossos!
Eu balancei a cabeça em negação, meu corpo e a mente estavam longe dali, longe daquela comemoração, presos na fazenda e na dor de Alina.
— Vão vocês — respondi sorrindo e os empurrando para longe. — Tenho coisas a resolver.
Renn franziu a testa, inclinando a cabeça como se não entendesse.
— Coisas? Tipo o quê? Ganhamos cara! Aqueles humanos não vão voltar tão cedo. Vamos, só uma rodada. Pelo menos pra lavar o sangue da garganta.
— Isso, alfa! — Torren riu, dando um gole na garrafa. — Você não está com cara de quem acabou de sair vencedor de uma briga. Uma bebida vai te soltar. O que pode ser mais importante que isso?
— Ele está certo, Kaian — interveio Renn, se pendurando no amigo. — A gente lutou como loucos lá fora. Merece um descanso. O que está te corroendo tanto?

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