A reunião estava pegando fogo, o ar na sede estava carregado de tensão e fúria, como se cada palavra fosse uma faísca pronta para incendiar o lugar inteiro. Os cinco alfas das alcatéias vizinhas estavam ali, sentados em volta da mesa de madeira antiga, os rostos marcados pela raiva e pelo cansaço, os olhos dourados brilhando com uma intensidade que eu conhecia bem a sede de sangue.
Ao lado deles estavam os anciões de confiança de cada alcatéia, velhos lobos com cicatrizes que contavam histórias de batalhas antigas, murmuravam entre si, as vozes roucas ecoando no salão.
A cena que havíamos encontrado no acampamento dos desgarrados ainda queimava na mente de todos, corpos dilacerados, o cheiro de sangue e morte impregnado na terra, os uivos de dor dos sobreviventes ecoando como fantasmas. Aqueles humanos os caçadores dos laboratórios haviam levado dez dessa vez e conseguido matar seis em uma emboscada covarde. Os nervos estavam à flor da pele, e eu sentia o meu lobo rosnando baixo, raspando as garras exigindo ação, mas também uma fadiga profunda que me fazia questionar tudo.
— Temos que atacar o laboratório agora! — bradou Garrick, o alfa da alcatéia do norte, batendo o punho na mesa com tanta força que a madeira rangeu. Seus olhos faiscavam de ódio. — Eles estão se aproximando cada vez mais! Se esperarmos, vão pegar mais dos nossos, como aqueles pobres desgarrados. Vamos invadir, dilacerar cada um daqueles vermes e resgatar os capturados antes que os transformem em cobaias!
— Atacar sem plano é suicídio, Garrick! — rebateu Elara, a alfa da alcatéia leste, a voz afiada como garras. Ela era menor que os outros, mas sua presença dominava o espaço, os cabelos prateados nos lembrando que tipo de lobo ela era. — Não adianta invadir o laboratório se não soubermos quem é o chefe por trás disso. Eles vão se reorganizar e vir com mais força. Já vimos isso antes, atacamos um ninho e dois surgem no lugar. Precisamos de inteligência, não de bruteza cega!
Os anciões murmuraram em concordância, um deles, o velho Keilan da minha alcatéia, inclinando-se para frente com os olhos semicerrados.
— Elara tem razão. Esses humanos não são caçadores comuns, são organizados e financiados. Matamos os peões, mas o rei escapa! Temos que capturar alguns vivos, torturá-los até cantarem como pássaros. Descobrir o nome do chefe e o esconderijo principal.
— Tortura? — zombou Varak, o alfa do sul, um gigante com cicatrizes cruzando o rosto como mapas de guerra. Ele riu, um som gutural que ecoou pelo salão. — E enquanto arrancamos unhas e dentes, o chefe deles some no mundo? Eles têm planos de contingência, redes. Até lá já vão estar em outro continente, financiando mais caçadas. Não, precisamos atacar o coração, o laboratório principal. Cortar a cabeça da serpente de uma vez!
A discussão explodiu, vozes sobrepondo-se em um caos de rosnados e gritos, até que Garrick se levantou com os punhos cerrados.
— Vocês são covardes! Enquanto discutem, nossos irmãos sofrem em jaulas, injetados com venenos! Eu vi os corpos daqueles desgarrados rasgados como papel, os olhos vazios de terror. E vocês querem esperar? Planejar? Ataquem agora, ou morram como fracos!
— Fracos? — Elara rosnou, os dentes à mostra. — Você é um idiota impulsivo, Garrick! Lembra da última emboscada? Perdemos vinte porque alguém como você achou que brutalidade e sangue bastava. Precisamos de aliados, espiões dentro das linhas humanas.
Keila interveio erguendo a mão e fazendo com que todos calassem para ouvi-lo em respeito.
— Basta! Precisamos de provas, nomes. Atacar o laboratório sem saber o chefe é como cortar uma cabeça de uma hidra e ver mais crescerem no lugar.
— E enquanto planejamos, eles levam mais. — Varak bufou, cruzando os braços. Olhem para aqueles corpos, são seis mortos. Imaginem o que estão fazendo com os que foram levados, sendo cortados, testados. Eu digo: ataque, torture os sobreviventes, e siga o rastro até o topo!
Todos voltaram a gritar, ninguém conseguia tirar da cabeça a cena horrenda e foi isso que nos fez decidir na reunir. Não havia uma reunião como aquela com tantos alfas há muitos anos, não víamos motivos e cada alcatéia seguia sozinha, mas com todos nós sendo atacados e agora os corpos dos desgarrados espalhados como lixo no acampamento deles, era uma mensagem clara para espalhar o medo.
Meu lobo uivava, exigindo sangue, mas minha mente estava dividida, a culpa por Alina me corroendo por dentro. Eu me inclinei para frente, pronto para intervir, quando Leon entrou afobado, o rosto vermelho, os olhos semicerrados em raiva. Ele deu a volta na mesa, ignorando os olhares curiosos, e se aproximou de mim, sussurrando
— Precisa sair agora, Kaian. — ele sussurrou, mas o ignorei focado na discussão com o punho cerrado sobre a mesa, analisando cada uma das recomendações antes de dar a minha própria. Mas Leon insistiu com um toque urgente em sua voz. — É Alina.
Meu coração deu um salto, mas eu me forcei a ficar parado. Ela está segura na cabana, longe de tudo isso. Longe desses alfas que questionariam tudo se soubessem da humana em minha casa. Eu a deixei lá de propósito, isolada e escondida para evitar boatos, para não ter que lidar com mais confusão quando meu mundo já estava em chamas.

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