O piso de madeira rangeu sob meus pés descalços enquanto meus dedos formigavam para que eu puxasse o pano que cobria o cavalete. Estendi a mão, hesitante, não sabendo o que iria encontrar embaixo dele, então o puxei deixando que o tecido caísse no chão.
Meu fôlego parou quando dei de cara com a minha imagem na tela. Ainda era um quadro inacabado, mas podia me ver claramente ali. Meu rosto pintado com traços delicados, os olhos capturando uma expressão de vulnerabilidade e força que eu nem sabia que tinha. As cores que ele tinha escolhido eram vivas e as pinceladas, até mesmo o contorno dos meus lábios e a pequena cicatriz no meu queixo, estava retratada no quadro.
— Como? — sussurrei com o coração acelerando ao esticar meus dedos e tocar a pintura.
Então minha mente voou para o dia do nosso casamento, a primeira vez que entrei em sua casa e me deparei com os quadros de paisagens na sala, os detalhes que pareciam pulsar com vida. Kaian tinha pintado elas, ele era um artista nato, mas eu não tinha visto nenhuma pintura de retratos, apenas de paisagens. Por quê ele pintou um quadro meu? A pergunta ecoou na minha mente, acendendo uma pequena fagulha de esperança.
Pela primeira vez eu senti como se Kaian me visse de verdade, como se aqueles momentos de desejo não fossem apenas acidentes impulsivos, eram algo mais profundo.
As lágrimas voltaram a encher meus olhos enquanto eu observava a minha imagem retratada com um carinho que ele nunca demonstrou em palavras. Mas um arrepio subiu pela minha coluna, o frio da cabana se infiltrando pela minha pele exposta, me lembrando que eu precisava ir embora antes de congelar ali sozinha.
Sai da cabana sentindo o frio lá fora me acertar com força, penetrando a blusa rasgada e gelando minha pele. A noite estava escura e a floresta densa, por sorte tinha a lua cheia iluminando o caminho estreito da montanha. Eu apertei os braços ao redor do corpo tentando me proteger mais do frio, mas era inútil, meu corpo tremia e os dentes batiam enquanto eu descia a trilha tentando manter o foco no chão para não cair em todas aquelas raízes e galhos caídos.
Por quê ele fez isso? Me trouxe aqui, me beijou como se eu fosse tudo, disse que não me deixaria ir, e depois sumiu. Como se eu não importasse. Bufei comigo mesma sentindo a raiva por Kaian aumentar a cada segundo que eu passava andando naquele frio. Se ao menos eu tivesse pego meu celular no meu carro, mas não, fui estúpida de deixar tudo para trás enquanto ia falar com ele e agora estava ali, sozinha e tremendo de frio.
Então, um som ecoou no meio das árvores, um farfalhar de folhas seguido de um estalo de galho quebrado. Meu coração acelerou e o pânico subiu por minha espinha.
— Tem alguém aí? — perguntei com a voz tremendo, não sei ao certo se de frio ou por medo. Mas não houve resposta, apenas o vento uivando por entre as árvores. Eu voltei a andar mais rápido sendo impulsionada pelo medo, mas o som voltou de passos suaves e vozes abafadas ao longe ecoou novamente. — Quem está aí? — gritei, a voz ecoando pela floresta. — Por quê estão me seguindo?
Girei em volta, meus olhos varrendo a escuridão, mas não conseguia ver nada além de sombras que eu não sabia distinguir se eram árvores, algum animal ou uma pessoa.
Eu corri com os pés batendo na terra úmida, tropeçando em raízes que pareciam se erguer do chão. Os galhos das árvores chicoteavam meu rosto e em meus braços, ajudando a rasgar ainda mais minha roupa e arranhando minha pele. Eu podia sentir o sangue quente escorrendo em minha bochecha, mas não podia parar, não agora.
Uma raiz me pegou de surpresa, e eu caí batendo os joelhos em uma pedra dura, a dor explodiu subindo por minhas pernas como fogo. Levanta, Alina! Gritei comigo mesma na minha mente, não podia ficar ali paralisada pelo medo e pela dor ou o pior poderia acontecer.
Me levantei ignorando tudo, apenas focada no som atrás de mim que se intensificava, eu podia ouvir os passos rápidos, vozes rindo baixo, uivos ecoando como em uma caçada. Eles estavam me caçando, e pareciam se divertir com isso. Tropecei de novo sentindo o braço raspar em um galho espinhoso, a pele se abrindo em um corte profundo que ardia como ácido.
O sangue escorria em minhas pernas, braços e rosto, mas eu continuei, puxando o fôlego mesmo com os pulmões queimando. Por quê estavam atrás de mim? O que eu fiz? Minhas lágrimas se misturavam ao suor e ao sangue, borrando tudo ao meu redor com dor e medo.
Então um uivo cortou o ar, longo e sombrio, me fazendo parar por um segundo, o pânico deu lugar a uma esperança tola.
— Kaian? Kaian é você? — perguntei com o coração apertado e ansioso para que fosse ele.
Mas então um vulto passou por mim, rápido como uma sombra e algo me atingiu com força parecendo uma mão, mas causando um corte ardente no braço que me fez gritar com a dor.
No instante seguinte eu estava rolando montanha abaixo, meu corpo batendo em tudo no caminho, pedras, raízes arranhando as costas, galhos chicoteando meus braços. A dor parecia ter ficado em segundo plano com tantos machucados para meu corpo lidar, o joelho torcendo, meu ombro batendo com um estalo, era como se meu cérebro tivesse se desligado de cada batida e focado apenas em me manter viva enquanto o ar era arrancado dos meus pulmões a cada impacto.
Rolei sem controle até alcançar a clareira, meu corpo parando com um baque final que me deixou sem ar.
Eu estava ofegante encarando o céu aberto acima de mim, sem as árvores para encobri-lo e quase chorei de alívio, mas eu ainda não estava em segurança. Tentei me levantar com os braços tremendo o sangue escorrendo. O mundo parecia ainda rodar e eu não sabia se era das pancadas ou do giro longo, mas vozes ecoaram ao meu redor cochichos maliciosos, risadas abafadas.
Me preparei para o pior antes de abrir os olhos com o coração acelerado, mas vi que estava cercada por pessoas da reserva.
— O que aconteceu com ela?

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