Pamela
Cheguei em casa exausta, mas não era o corpo que pesava, era a mente. Eu ainda ouvia aquela voz irritante, aquele tom meio debochado da Clarissa quando disse na mesa do almoço: “Eu acho o Caleb uma delícia”.
Delícia.
A palavra ficou ecoando dentro de mim como um zumbido. Uma delícia? E o pior: ela disse isso na minha frente. Como se eu fosse invisível. Como se não tivesse problema nenhum falar daquele jeito do próprio chefe. Do meu marido.
Joguei a bolsa no sofá, chutando os sapatos pra longe. Senti minhas pernas bambas, mas não era cansaço, era raiva.
Subi pro banheiro, abri o chuveiro no máximo e deixei a água quente cair sobre mim, mas nem a pressão da água conseguia lavar o ódio que eu sentia. Fechei os olhos e a cena se repetia, como se fosse um replay. As risadinhas dela, o jeito como falava do Caleb, como se ele fosse um pedaço de carne exposto no açougue.
Passei shampoo, condicionador, esfreguei a pele até ficar vermelha, e mesmo assim o pensamento não ia embora. Eu enxugava o cabelo e ainda lembrava. Eu me enrolava na toalha e lá estava a frase de novo.
Como ela teve coragem de falar isso?
Bufei alto, me olhando no espelho embaçado. — Ridícula — resmunguei sozinha. — Idiota.
Abri o armário, peguei meu pijama de seda e me vesti devagar, ainda mastigando a raiva. Eu sentia ciúmes, sim, mas também uma indignação absurda. Que tipo de funcionária falava do chefe daquele jeito?
Desci até a cozinha, tentando me distrair. A cozinheira estava lá, preparando o jantar. O cheiro de tempero invadia o ar.
— Boa noite, dona Pamela — ela disse com aquele sorriso simpático. — Hoje fiz bacalhau com batatas, do jeitinho que o senhor Caleb gosta.
Forçei um sorriso. — Obrigada, Maria.
Ela continuou falando sobre temperos, sobre um bolo que ia preparar no fim de semana, mas eu não conseguia prestar atenção. A cada palavra dela, eu só ouvia outra voz na minha cabeça: “Ele é uma delícia”.
Subi a escada de novo, me joguei na cama e fiquei olhando pro teto. A raiva vinha em ondas. Eu pensava em ligar pra ela agora mesmo, xingar até cansar. Mas não podia. Eu não podia simplesmente rasgar a máscara e mostrar que a esposa do Caleb estava ali o tempo todo.
Suspirei, tentando controlar a respiração. O som da porta se abrindo me arrancou do transe.
— Pamela? — a voz dele ecoou pela casa.
Meu coração disparou. Caleb.
Ele entrou no quarto, cheiroso, cansado, mas lindo como sempre. Largou o paletó na poltrona e veio até mim, curvando-se para me beijar. Um beijo delicioso, daqueles que faziam o corpo todo tremer.
Mas, mesmo com a boca dele na minha, a frase voltou. Como um veneno. “Ele é uma delícia”.
Afastei-me devagar, tentando disfarçar.
— Vou tomar um banho — ele disse, já abrindo os botões da camisa.
— Tá bem.
Fiquei sentada na cama, ouvindo a água correr no banheiro. E lá estava eu, sozinha de novo com meus pensamentos venenosos. Eu mordia o lábio, tentando não deixar a raiva explodir. Mas parecia impossível.
Quando Caleb desceu para jantar, já de roupa confortável, encontrei ele na mesa posta. A comida parecia maravilhosa, mas o apetite me abandonara.

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