Pamela
A semana tinha passado arrastada.
Eu já estava quase convencida de que minha paranoia com a Clarissa era só exagero da minha cabeça. Ela continuava lá, toda produzida como se fosse capa de revista, mas não tinha feito nenhum movimento direto, nenhuma gracinha explícita pro Caleb, nada além do que eu já tinha visto no primeiro dia da transformação radical dela.
No começo eu fiquei atenta, reparando em cada detalhe. O jeito que ela falava com ele, os sorrisos forçados, o andar rebolando quando ia levar papéis. Mas depois de dias e dias sem nada, eu comecei a pensar: “Tá, talvez eu esteja exagerando mesmo. Talvez seja só o estilo dela, cada um se veste do jeito que quer.”
Respirar aliviada, porém, não era tão fácil. Porque toda vez que eu lembrava daquela frase nojenta dela no almoço – “acho ele uma delícia” – um frio subia pelo meu estômago. Só que, mesmo assim, eu estava quase desistindo de ficar de olho.
Naquela manhã, o escritório estava cheio, mais barulhento que o normal. Todo mundo animado, rindo, comentando alguma coisa que tinha saído numa revista de negócios sobre o Caleb. Eu cheguei, cumprimentei as meninas, e fui direto pra minha sala. Tinha pilha de relatórios esperando por mim, e eu precisava organizar minha agenda antes de uma reunião com fornecedores.
Enquanto digitava, ouvia risadinhas no fundo do corredor. As secretárias estavam conversando, o que não era novidade. Eu não tinha tempo pra fofoca, mas parte de mim sempre ficava curiosa sobre o que elas falavam.
No almoço, como sempre, eu me sentei com o grupo. Mesmo sendo executiva agora, eu não queria me afastar delas. Sempre almocei com as secretárias e continuaria fazendo isso. A mesa estava cheia: cinco mulheres falando ao mesmo tempo, jogando assuntos de novela, compras e até política.
E foi aí que a bomba caiu.
— Gente — Clarissa disse, ajeitando o cabelo loiro oxigenado, a boca pintada de vermelho como se fosse jantar num restaurante caro e não comer estrogonofe na copa da empresa —, o Caleb é simplesmente perfeito.
Eu levantei os olhos do meu prato.
Ela continuou, como se estivesse recitando uma lista de qualidades.
— Ele é lindo, inteligente, rico, educado, gentil... sério, eu nunca vi um homem assim. Parece até mentira.
As meninas riram, algumas balançaram a cabeça. Uma delas até disse:
— Ah, vai com calma, Clarissa, é o chefe.
— E daí que é o chefe? — ela respondeu, rindo de um jeito que me deu vontade de enfiar o garfo no prato com força. — Isso não muda nada. Ele é um homem, e eu sou uma mulher.
Eu respirei fundo, tentando engolir a raiva junto com o suco. O sangue subiu pro meu rosto, mas eu fiquei quieta.
Só que aí, uma colega, a Júlia, entrou no papo com aquela inocência venenosa que às vezes ela tinha:
— Mas eu ouvi falar que ele casou, né? Não sei onde vi isso... acho que foi num grupo de fofoca sobre empresários, ou numa nota de revista.
Minha espinha gelou.
O garfo parou no ar, e eu quase deixei ele cair.
Clarissa arregalou os olhos, e por um segundo pensei que ela ia se calar. Mas não. Ela sorriu, inclinou a cabeça e soltou:

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