Pamela
O caminho de volta pra casa parecia interminável. Eu dirigia, mas nem via a rua. O que ecoava na minha cabeça era só a voz da Clarissa, o jeito debochado dela falando que não ligava pro Caleb ser casado, porque ninguém nem conhecia a mulher dele.
Eu.
A mulher invisível.
Quando estacionei o carro na garagem, meus dedos ainda estavam trêmulos no volante. Respirei fundo, fechei os olhos e tentei me recompor antes de entrar. Eu não queria que o Caleb percebesse logo de cara que eu estava fervendo por dentro, mas era difícil esconder.
A casa estava silenciosa, cheirando a comida fresca da cozinheira. Larguei a bolsa no sofá e fui direto pro quarto. Troquei de roupa, lavei o rosto, mas parecia que nem a água conseguia levar embora aquele peso.
Quando ouvi a porta se abrir, soube que ele tinha chegado. Caleb entrou, todo elegante como sempre, mas com aquele sorriso que era só meu. Ele se aproximou, me puxou pela cintura e me deu um beijo lento, gostoso, que quase fez minha raiva derreter. Quase.
— Como foi o trabalho? — ele perguntou, encostando a testa na minha.
Eu hesitei. Queria dizer “foi ótimo” e deixar por isso mesmo. Mas a imagem da Clarissa rindo, a voz dela me chamando de inexistente, me fez soltar um suspiro pesado.
— Foi... interessante — respondi, tentando soar neutra, mas sei que minha expressão me entregou.
Ele arqueou a sobrancelha, desconfiado.
— “Interessante”? Isso soa como código pra “não gostei de alguma coisa”. O que houve, amor?
Eu mordi o lábio, lutei contra a vontade de guardar pra mim. Mas não consegui.
— É a sua secretária — falei direto, cruzando os braços. — A Clarissa.
Ele franziu o cenho.
— O que tem ela?
— Ela... — minha voz vacilou, mas depois ganhou firmeza —, ela vive fazendo comentários sobre você, Caleb. Hoje no almoço ela falou que você é lindo, inteligente, rico, perfeito. Disse que você é um bom partido. E quando comentaram sobre você ser casado, ela disse que não ligava, porque ninguém nunca viu essa mulher.
Ele piscou, surpreso, como se não acreditasse no que eu estava contando.
— Ela disse isso?
— Disse. Na minha frente. — A raiva voltou com força na minha voz. — Como se eu não estivesse ali. Como se eu fosse invisível.
Caleb passou a mão no queixo, pensativo, mas não parecia nervoso. Parecia... chocado.
— Eu não fazia ideia de que ela falava desse jeito. No trabalho, ela sempre mantém a postura.
— Claro — rebati, com sarcasmo. — Na sua frente ela posa de santa. Mas quando você não está, se solta.

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