Nyroth
Eu não conseguia respirar.
Não. Eu só podia estar enlouquecendo para sequer cogitar um pensamento tão absurdo.
Fiquei parado por longos segundos, revivendo em minha mente a cena que acabei de presenciar.
O grampo de cabelo. A metade idêntica à que eu guardava.
Não. Não…
Cambaleei um passo para trás, depois me virei e corri para o meu quarto. Minhas mãos tremiam ao atravessar o espaço e me ajoelhar diante do velho baú no canto. Por alguns instantes, apenas encarei a tampa fechada, como se ela pudesse me engolir viva. Então, com um movimento brusco, a abri.
Ali estava. A outra metade do grampo.
Um arrepio gélido percorreu minha espinha. Zeph… teria roubado? De onde ela tirou aquilo? Por que ela tinha aquilo?
Fechei o baú com força, o estrondo ecoando como um trovão em minha mente, e saí sem dar uma palavra.
Na sala de estar, minha irmã mais nova e minha mãe me observavam com rostos tensos, cheios de perguntas. Eu não parei. Não podia.
Precisava confirmar se o que vi era real, ou se era apenas fruto do medo de perder minha companheira para sempre.
Saí correndo de casa, a tempo de ver a porta do quarto de Kai se abrir. O vi agachado na beira da cama, curvado sob o próprio silêncio.
Desde que Apex invadiu minha matilha, encarando meu Beta nos olhos e decretando que sua morte já estava atrasada, Kai nunca mais foi o mesmo.
Suspirei fundo, trêmulo, antes de montar em meu cavalo. Esporeei o animal até ele disparar em direção à Matilha Blackbridge. Perguntas queimavam dentro de mim, e apenas Kaela poderia respondê-las.
Não demorou para que os cascos diminuíssem diante dos portões imponentes do salão principal de Blackbridge.
O ar estava pesado, carregado de tensão. Os membros da matilha se reuniam em pequenos grupos, murmurando sobre a mulher renegada que ousou desafiar o Beta Yadev.
— Ela é corajosa. Nunca imaginei que tivesse isso nela.
— Você a conhece?
— Eu a vi na Matilha Hue. Morava lá até pouco tempo. Dizem que Apex Blood, o Rei Lycan, é o homem dela.
— Sério? Que sorte! Estou torcendo por ela no duelo.
Ignorei os sussurros, ainda que cada palavra me corroesse. Minha ligação com Kaela nunca foi segredo aqui, apenas uma verdade silenciada, mas que todos sabiam.
Avancei pelos corredores até os aposentos dela. No caminho, cruzei com renegados que haviam fugido da Matilha Hue após a invasão de Apex. Todos empalideceram ao me ver, lembrando-se da presença esmagadora do Rei Lycan. Ele os havia marcado com palavras que oscilavam entre confiança e compaixão, uma mistura perturbadora. Era como se nada da nossa política importasse para ele… como se carregasse fardos que nenhum de nós ousaria suportar.
A mandíbula rígida, entrei na sala de estar de Yadev. Kaela estava ali, em intensa conversa com o pai sobre o duelo iminente.
— É até a morte, o que significa que você terá sua vingança — disse ela ao líder renegado. — Mas não basta vencê-la. A Humilhe. É um duelo oficial. O Rei Lycan não poderá interferir.
Ela me sentiu antes mesmo de me ver. Se virou com aquele mesmo sorriso doce, sedutor, que tantas vezes me enganou.


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