Zephyrine
A noite estava fria. O vento assobiava entre as árvores, fazendo as folhas secas farfalharem sob meus passos. Eu caminhava em direção à Alcateia Branca a pé, o peito apertado como se o segurasse com as próprias mãos.
Não me apressei. Não usei minha velocidade. Estava vazia.
O vínculo que Nyroth se recusava a romper, o peso da certeza de que Lycannar nunca desistiria de me perseguir… tudo isso tornava meu coração pesado. E, ainda assim, eu seguia em direção a outro homem, Moon, que faria qualquer coisa para me ter.
Mas esta noite não era sobre homens. Eu visitaria o salão memorial. Prestaria minhas homenagens aos meus pais. Rogaria por força e orientação, porque pela primeira vez em cinco anos, eu estava prestes a fazer aquilo que eles me ensinaram de melhor: lutar. Lutar por justiça. Lutar pela paz.
Enquanto avançava, um calor súbito pressionou minhas costas. Aquela sensação familiar: estava sendo observada. Seguida.
Parei e me virei.
Lycannar Blood.
Ele caminhava ao lado de seu cavalo negro, os passos longos em sincronia perfeita com a besta.
Quando parei, esperei que viesse até mim. Mas ele não se moveu. Ficou onde estava, apenas me observando à distância.
Suspirei. Claro que ele já sabia do meu duelo. E, sem dúvida, estava furioso.
Me virei e continuei andando. Atrás de mim, os passos dele recomeçaram.
Não tentou me alcançar. Não encurtou a distância. Apenas seguiu. Silencioso. Paciente.
E, a cada passo, aquele vazio dentro de mim foi se dissipando. Um calor estranho se espalhou no meu peito. O simples fato de ele estar ali, me vigiando, me fez sentir… segura.
Quando chegamos aos portões da Alcateia Branca, girei o corpo. Nossos olhares se encontraram por um breve instante. O rosto dele permanecia insondável, distante, misterioso. Então, sem dizer uma palavra, se virou para partir.
Isso me surpreendeu.
— Espere! — chamei, franzindo o cenho.
Ele parou, me olhou por poucos segundos… e voltou a se viur.
— Lycannar!
Ele não respondeu. Corri, bloqueando seu caminho, sem fôlego.
— Como você ousa aparecer na minha noite e simplesmente ir embora? Eu não significo nada para você?
— Fale por si mesma — murmurou.
Procurei em seus olhos e, inesperadamente, um sorriso escapou de mim.
— Você está bravo comigo?
Ele tentou contornar. Bloqueei-o de novo, chegando mais perto, um sorriso provocador nos lábios.
— Está bravo porque desafiei um duelo, não é?
Nenhuma resposta.
Suspirei.
— Então… vai comigo ao salão memorial? Quero ver meus pais.
O silêncio pesou. Me lembrei de Nyroth, de como ele teria rejeitado esse pedido sem pensar duas vezes. Meu coração martelava, esperando a reação de Lycannar.
Ao invés de responder, ele simplesmente passou por mim e caminhou até o portão. Parou ali, no mesmo lugar de sempre.
Esperando.
Esperando que eu entrasse. Que mudasse.
Um nó de emoção se formou em meu peito.
Lycannar… era um homem perfeito em sua imperfeição. E eu não sabia como lidar com isso.
O céu trovejava quando ele parou seu cavalo diante do salão memorial.
Um frio me percorreu. Ele respondia à pergunta que eu havia feito nos portões.
— Você não tem ideia de como eu seria se estivesse bravo com você. Ou se deixasse de ser obcecado por você.
— Lycannar…
— Eu matei aquele Alfa. Qualquer duelo, qualquer luta, deveriaser meu, não seu. Não quero que limpe a minha bagunça.
Meu coração afundou. Então era isso. O duelo.
— Eu posso cuidar de mim mesma.
— Com seus movimentos enferrujados? — retrucou, direto.
— O quê?
— O renegado vai lutar com tudo. E você? — Os olhos dele prenderam os meus, como se enxergassem além da minha pele.
Congelei. Ele sabia. Mas como?
— Eu sei que você é uma guerreira — disse.
Meus joelhos quase cederam.
— Como?
Ele tomou minha mão, o polegar roçando minha pele.
— Reconheço as mãos de uma guerreira. As calosidades… não vêm de tarefas comuns, nem de dificuldades. São de treino. Treino real.
Ele me puxou para seus braços, e eu não resisti.
— Se você quer vencer aquele renegado — murmurou junto ao meu ouvido — venha para os meus terrenos. Treine comigo. Eu vou te ensinar novos movimentos.

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