Zephyrine
— Aqui. É um dos vestidos de Mearez. Serena disse que sua altura é mais próxima da dela, mas ainda acho que o vestido de Mearez vai servir melhor em você.
Aceitei o vestido das mãos dele, olhando-o por um longo instante antes de procurar um espelho, apenas para perceber que não havia nenhum ali.
— Você… você não tem um espelho? — perguntei, lembrando em seguida do que ele já havia me contado, de como nunca tinha olhado para um desde que nasceu.
Ele não respondeu. Apenas permaneceu ali, me observando com um olhar fixo, intenso, sem piscar, enquanto eu começava a me trocar.
— Você acha que sou estranho? — a voz dele veio baixa, quase um sussurro, por trás de mim.
Meus dedos pararam sobre o tecido por um instante. Respirei fundo.
— Venha me ajudar com as costas.
Ele se aproximou. Seus dedos roçaram de leve contra a minha pele nua enquanto fechava o vestido. O toque suave me fez engolir em seco, tentando conter o calor que se espalhava, lento, pelo meu estômago.
— Você não é estranho para mim — murmurei por fim, virando para encará-lo assim que terminou. Minha mão repousou aberta contra o peito dele. — De tudo que vejo e sei, você apenas… viveu do jeito que ensinaram a viver.
Ele engoliu em silêncio, como se aquelas palavras tivessem peso. Não dei tempo para mais nada. Passei por ele e segui em direção à saída.
— Vamos, Lycannar. Não deixe suas irmãs esperando.
Desci as escadas apressada, antes que ele pudesse me acompanhar. Ri baixinho para mim mesma, até que alcancei a sala de jantar e congelei.
A “família” que eu esperava ver se resumia a suas duas irmãs e o tio. Mas a cena diante de mim era muito maior… e bem mais perturbadora.
Dei um passo para trás, pronta para recuar, mas já era tarde. Lycannar vinha descendo as escadas atrás de mim. Seus passos eram firmes, calculados. Um. Dois. Até parar diante de mim, vestido com sobriedade, o rosto fechado e indecifrável.
— Lycannar… — minha voz saiu em alerta.
Ele pegou minha mão, entrelaçando seus dedos nos meus, e simplesmente me puxou em direção à mesa. Sua mandíbula se mantinha firme, carregada de uma resolução inabalável.
— Esta é Zephyrine. Ela é minha mulher. — Sua voz não soava como uma apresentação, mas sim como um aviso.
Um arrepio desconfortável percorreu minha pele. Se aquilo desse errado, havia sangue à espreita.
Com cautela, percorri a mesa com os olhos. Seu tio estava sentado do outro lado, um homem de olhar firme e calculista. Ao lado dele, uma mulher elegante, mas com postura fria como gelo. Mais adiante, dois homens e uma mulher, todos bem-vestidos, mas com expressões tensas que denunciavam lealdade controlada.
— Este é meu tio, Doreth, e sua esposa, minha tia Eiryn — apresentou Lycannar. Me inclinei em uma reverência respeitosa.
— Estes três são meus primos: Cealan, Baron e Beauty.
Baron, o do meio, sorriu calorosamente. Os outros dois, porém, me lanço um olhares secos, nada acolhedores.
Do lado oposto estavam Mearez e Serena.
— Você já conhece minhas irmãs mais velhas — acrescentou Lycannar. Mearez sorriu, e eu não consegui evitar retribuir. Serena fez uma reverência contida; repeti o gesto.
Meus olhos então desceram para o outro extremo da mesa.
— O mais jovem é meu irmão mais velho, Hades. E o homem ao lado dele é meu tio materno, Ureh.
Me curvei novamente, mas ambos me encararam com a mesma intensidade inquietante de Lycannar. Instintivamente, me aproximei dele.

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