Havia, incrivelmente, um homem sentado em silêncio no seu quarto à meia-luz.
Ele vestia uma camisa preta de corte minimalista, com o colarinho levemente aberto. Seus traços eram de uma beleza estonteante, os olhos escuros e cortantes. As bochechas apresentavam uma palidez de aspecto doentio, o que atenuava o excesso de beleza e lhe conferia um toque sombrio.
No instante em que Laís viu o homem, imediatamente se lembrou daquelas pinturas a óleo de nobres medievais expostas em catedrais do antigo Império Romano.
Aquele rosto, embora tivesse alguns contornos semelhantes aos dela, destacava-se de maneira extraordinária.
Especialmente seus olhos; bastou um olhar de soslaio para causar em Laís a sensação sombria de uma rajada de vento frio varrendo o rosto.
Devido ao ângulo de visão, Laís só conseguia ver suas mãos sobrepostas nos joelhos e a parte inferior do corpo coberta por uma calça social preta, que revelava um vazio.
No entanto, através daquele rosto bonito que gradualmente se sobrepunha a um contorno embaçado em sua memória, Laís reconheceu quase instantaneamente quem ele era.
A mão de Laís, que segurava o celular, começou a tremer levemente de forma incontrolável.
No segundo seguinte, o aparelho escorregou de seus dedos, caindo no chão de madeira com um baque surdo.
— Laís? Laís? O que aconteceu? — Carla continuava chamando ansiosamente do outro lado da linha.
Laís não conseguia mais ouvir.
Seu mundo, naquele momento, parecia ter sido silenciado; só restavam os batimentos frenéticos do seu próprio coração.
Ela apressou o passo, isolando por completo o som do celular.
Porém, quando realmente parou diante do homem, deteve-se instintivamente, reprimindo a imensa alegria em seu coração.
Laís fez o máximo para conter suas emoções, chamando-o com extrema calma e comedimento:
— Irmão.
O homem ergueu lentamente o olhar, fitando Laís.
Os olhares dos irmãos finalmente se encontraram após tantos anos; as emoções de ambos eram um misto complexo.
Ao longo de todos esses anos, estiveram praticamente sem contato. Na vida de cada um, coisas demais haviam acontecido.
Os laços de sangue e a saudade encharcada pelos anos explodiram naquele momento.
Os olhos de Laís arderam no mesmo instante; lutou para conter as próprias emoções e, de modo inconsciente, sua mão tocou a barra da calça dele.
Quando seus dedos sentiram algo parecido com um suporte mecânico em vez da maciez da pele, o coração de Laís despencou abruptamente, como se estivesse amarrado a uma pedra de mil quilos.
Ela sabia o que o irmão queria dizer.
Ambos haviam passado por muitos perigos e obstáculos, suportando, cada qual à sua maneira, um período imenso de imensas provações.
Poderem se ver vivos nesta vida, como estavam fazendo agora, era mesmo uma bênção.
A voz de Laís engasgou de forma involuntária:
— O que há de bom nisso? O que é bom? Olhe só, as suas pernas...
Laís ainda não conseguia aceitar a triste realidade de que o irmão havia perdido as duas pernas.

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