Ela não entendia por que o destino precisava ser tão cruel com eles, pregando uma peça tão perversa e lançando-os de um redemoinho sombrio para o outro.
O homem moveu os lábios, esboçando um sorriso fraco:
— Eu não as tenho agora? Pernas mecânicas também são pernas. Dá para andar bem com elas.
Dizendo isso, como se temesse que Laís não acreditasse, ele se levantou diante dela e deu alguns passos firmes de um lado para o outro.
Foi só então que o olhar quase despedaçado de Laís ganhou, enfim, um leve traço de alento.
— Você não faz ideia de como me senti quando o Jorge me contou que você tinha perdido as pernas, e de tudo o que aconteceu lá fora.
— Eu realmente tive vontade de pegar uma faca e matar o Bento Xavier e a Mirela Linhares! Ele poderia ter sido egoísta e fugido sozinho naquela época; por que teve que levar você junto, causando essa separação tão terrível entre nós três por todos esses anos?!
Ao tocar no assunto do passado, a perturbação de Laís tornava-se cada vez mais difícil de apaziguar.
Ela odiava o seu pai biológico, odiava aquela prima distante, Mirela Linhares, de quem nunca ouvira falar e da qual não tinha lembrança alguma.
Se não fossem os dois, o destino dela e do irmão jamais teria sido tão drasticamente reescrito, até chegarem à situação deplorável de agora.
— Tudo isso já passou.
Os olhos severos de Severino transpareciam uma frieza de quem já via a vida e a morte com indiferença. Mais uma vez, ele acariciou levemente a cabeça de Laís:
— Não vamos falar de coisas tristes. Venha, veja o presente de reencontro que eu trouxe; diga se gosta.
Ao terminar, ele se curvou com certa dificuldade, tentando pegar o enorme buquê de girassóis do chão.
Laís notou que, embora as pernas mecânicas facilitassem a caminhada diária dele, de forma alguma substituíam suas pernas originais; as limitações ainda eram evidentes.
Com o coração invadido por uma tristeza profunda, Laís abaixou-se apressadamente, ajudando o irmão a segurar o grande buquê.
Ao erguê-lo, teve um sobressalto; aquele arranjo de girassóis pesava muito mais que qualquer outro comum.
Sem querer, fixou o olhar no arranjo.
— Embora eu tenha deixado você passar por tantos sofrimentos durante todo esse tempo, a partir de hoje, pelo resto de nossas vidas, seu irmão tem o poder de deixá-la continuar sendo uma princesa.
Severino completou.
Ele tirou a coroa do buquê de girassóis e colocou-a cuidadosamente na cabeça de Laís.
Laís mordeu os lábios com força, num esforço colossal para conter a avalanche de emoções que prestes a desabar.
Ela não queria que o irmão a visse frágil; por isso, tentava desesperadamente manter um semblante frio e racional.
Mas Severino percebeu na mesma hora que a sensibilidade terna do coração de sua irmã era exatamente a mesma de quando era pequena.
— Se quiser chorar, chore. Não precisa segurar.
— Seu irmão de fato disse que esperava que você fosse como um girassol, sempre erguida contra o vento, voltada para o sol... mas até os girassóis abaixam a cabeça de vez em quando.
— Na frente do seu irmão, não precisa bancar a forte.

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