O olhar de Jorge passou por cima dela até parar no bebezinho nos braços da babá, e um pingo de ternura surgiu no fundo dos seus olhos gelados.
Aproximou-se, pegou a criança dos braços da babá e, depois de olhar para ela por alguns instantes, não pôde deixar de franzir o cenho:
— Por que ele está dormindo de novo? Ele nunca fica acordado?
Desde que retornara ao país, Jorge praticamente nunca tinha visto o pequeno Caio acordado. Todas as vezes que ia ao quarto da babá vê-lo, o menino estava em um sono profundo.
A babá murmurou timidamente:
— Senhor, bebês são assim na maior parte do tempo, dormem bastante... É normal.
Normal?
Uma dúvida plantou-se no coração de Jorge, mas ele decidiu não comentar nada. Apenas franziu o sobrolho e devolveu o pequeno Caio para os braços da babá.
Virou as costas e rumou em direção à porta. Durante todo aquele tempo, ele sequer olhou diretamente para Felipe.
Os dois haviam crescido juntos e sempre foram grandes amigos.
Na infância, quando participavam das competições de orientação nos acampamentos de verão, sempre formavam dupla.
Já haviam feito simulações de sobrevivência juntos, experimentado esportes radicais e viajado à savana africana para assistir à grande migração de animais.
Na África, enquanto filmavam os animais, Jorge chegou a ser cercado por uma cobra cascavel. Foi Felipe quem teve o raciocínio rápido de sacar as pequenas flechas de sua mochila e perfurar o pescoço da cobra com duas delas.
As flechas atravessaram a garganta da serpente e a mataram na mesma hora. Ele salvara a vida de Jorge.
Muitos anos depois, já na idade adulta, durante um momento de tensão em negociações corporativas internacionais, um dos rivais armou uma cilada e plantou capangas para assassinar Felipe no meio do evento.
Foi Jorge quem previu o perigo e, quando o pior estava prestes a acontecer, puxou Felipe para junto de si em um movimento veloz.
A bala foi desviada e roçou na orelha de Jorge. Não passou de um susto, mas até os dias de hoje, ainda existia uma marca bem nítida da bala que atravessara a orelha direita dele.
Ambos haviam salvado a vida um do outro, forjando uma verdadeira amizade de sangue.
No coração de Felipe, Jorge era como um irmão de verdade.
Mas agora, ao observar as costas de Jorge afastando-se, ele percebeu o quão estranhos haviam se tornado. Ao ponto de estarem no mesmo cômodo e sequer se cumprimentarem?
— Jorge.
Ao ver que Jorge abria a porta para sair, Felipe avançou em um salto e colocou a mão sobre o batente da porta, cravando o olhar penetrante sobre ele.

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