O "antigo lugar" a que se referiam era uma adega secreta e reservada no bairro cultural da parte velha da cidade.
Costumava ser o esconderijo das bebidas de Thiago Queiroz. Depois, ele reformou tudo, instalando uma mesa de sinuca, uma boa estrutura de som e um imenso telão. Desde então, virou o canto onde o grupo se encontrava com frequência.
Era repleto de rótulos raros do mundo todo, quase impossíveis de se encontrar em qualquer outro local da cidade.
Ao empurrar as pesadas portas acústicas, o aroma inconfundível do uísque e o odor envelhecido de carvalho bateram de frente com eles.
Os dois entraram, um logo após o outro, e se sentaram no estande situado no canto mais extremo.
Já devidamente acomodados, nenhum dos dois tentou falar qualquer coisa de imediato.
O garçom os reconheceu e, com grande formalidade, saudou-os, entregando duas garrafas fechadas de Macallan 30 Anos, um balde cheio de gelo e várias pequenas porções de aperitivos antes de se afastar.
Felipe serviu um copo cheio até a borda e entornou metade de um só trago. A ardência daquele líquido percorreu toda a sua garganta, contendo, com grande esforço, a tensão agonizante no seu peito.
Assim que pousou o copo de volta, encarando a cor dourada, ele quebrou o silêncio:
— Jorge, não tem nenhuma pergunta para me fazer?
A feição de Jorge estava impenetrável, ele pegou o copo e bebericou.
— Não.
Felipe pasmou e desenhou um sorriso cheio de amargura.
— No passado a gente sentava aqui, ria, conversava e bebia à beça. Era tão relaxante. Como foi que você ficou tão quieto assim?
O pescoço de Jorge se moveu sutilmente.
— O passado é passado. Os tempos mudaram, eu acho.
Foi uma mera observação, mas soou como o pisotear de um exército esmagando o coração de Felipe, cujos olhos minguaram imediatamente:
— Os tempos mudaram? Vai me dizer que você acreditou naquelas lorotas escritas pelos colunistas da internet e acha que eu e a Sofia...
A garganta de Felipe secou, travando sua fala.
Ao tocar no assunto, ele parecia afogado em incriminações irrevogáveis... Era a personificação da injúria.
— E lembre-se, a Laís também estava grávida. Como um homem de verdade, abandonar a própria filha e mulher grávida para cuidar da prima dela e do filho dos outros... isso quebrou toda a lógica racional.
— Existe um ditado: onde há fumaça, há fogo... Felipe, nunca deixei de botar fé em sua decência. Contudo, desta vez, não enxergo saída.
Jorge já solicitara investigações do seu funcionário, revelando em papel toda a trama do pré-natal, dos dias de maternidade até os últimos dias da recuperação do parto de Sofia.
Se não bastasse pegar incontáveis voos à disposição dela até o País A na época de sua gravidez, Felipe praticamente acampou no centro de recuperação pós-parto todos os dias da semana para ajudá-la.
As assinaturas de Felipe no registro de presença perfuraram-lhe os olhos feito um laser, eram incansáveis.
Por si, não se importava de questionar a inocência do seu irmão, no entanto, essas atitudes obscuras empurravam sua mão a apelar aos fatos.
Ter deixado a própria esposa nas mãos do outro não foi o engano, o absurdo era Felipe ter cruzado limites indevidos nos cuidados.
Felipe bateu no balcão ao se reerguer, os olhos disparando raiva em chamas.
— Jorge! Foi você quem pediu que eu ajudasse a Sofia! As coisas que fiz nasceram da promessa que fiz a você.

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