— Eu, Felipe Vasconcelos, tenho a consciência limpa. Eu sempre cumpri com o meu dever, e nunca tive a mínima intenção de ultrapassar os limites. O céu é minha testemunha!
— Eu nunca imaginaria isso. Tudo bem a Laís pensar isso de mim. Mas você, meu irmão há tantos anos, ser enganado pelas fofocas e duvidar do meu caráter!
Jorge não aguentou ouvir aquilo. Ele também se levantou, fixando um olhar gélido em Felipe:
— Pelo visto, até agora, você ainda não percebeu onde errou.
— Deixa para lá, não tem como acordar alguém que finge estar dormindo. Não temos mais nada para conversar.
Jorge já não queria mais debater o assunto com Felipe, as trocas de palavras haviam perdido todo o valor.
Deu-lhe as costas e ia saindo, até ouvir os gritos raivosos de Felipe atrás de si:
— Jorge, qual é o meu maldito problema? Eu dediquei todo o acompanhamento da gestação da Sofia para você, inclusive os dias inteiros do pós-parto também!
— Eu não cheguei nem a trocar a fralda da minha filha, não dei a mamadeira uma única vez, a minha ausência durou até os seus primeiros dias fora do berço. O primeiro a limpar o choro de teu garoto e segurar sua mamadeira? Eu. O cara em que ele botou as mãos saindo da sala médica? Eu. E ainda bancar a festa de comemoração luxuosa para ele...
— Tudo o que sacrifiquei pela mulher e criança suas te obriga a criar intrigas agora? Desde quando as suas atitudes soam iguais às frescuras da Laís?
O álcool apimentou o rancor, e Felipe escancarou goela abaixo de Jorge todo o fôlego asfixiado de seu coração.
Fora muito maltratado, injustiçado mesmo. Um deslize amoroso sequer passaria dos limites, mas suas vontades não brotaram, as mãos mantiveram-se santas e livres das podridões sugeridas por todos.
Como diabos a sua vida decaíra tanto aos porcos?
As acusações espirravam sobre o rosto e grudavam de maneira dolorosa.
Jorge paralisou seus passos. Sua língua calara há poucos instantes, mas os urros arranharam-lhe profundamente.
Não se revirou, disparou a fala em rumos vazios de carinho:
— Esse é o grande problema, Felipe.

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