A risada dela ecoou pelo ambiente. Soou amarga. Quase cruel. Difícil dizer se era deboche contra ele ou contra si mesma. Talvez contra os dois. Contra tudo o que tinham sido.
Isabela ergueu os olhos para Cristiano.
— Eu realmente queria entender qual é o sentido de você me manter presa a esse casamento.
Amor?
Ela quase achou graça da própria pergunta.
Amor pressupõe confiança. E o que existia entre eles já não tinha nada disso. Nenhum dos dois parecia acreditar, de fato, nessa palavra.
— Como foi que a gente chegou a se casar?
A pergunta saiu de repente. Não era provocação. Era dúvida real.
Cristiano não acreditava nela, especialmente agora. O jeito como ele a olhava por causa da criança, aquele traço de decepção fria, era o que mais doía. Era o olhar de alguém que já tinha decidido, que já a tinha condenado, que realmente acreditava que ela seria capaz de usar uma criança.
Se ele a via assim, então como tinham chegado até ali?
Cristiano permaneceu em silêncio. O ar ficou pesado.
Isabela respirou fundo e continuou, a voz estável:
— Na gravação, fica claro que a criança estava com a própria Lílian. Você pode não acreditar em mim, mas isso não muda o fato de que eu já chamei a polícia. — Ela deu um passo para trás, criando distância. — Eu não tenho medo de investigação. Se eu tivesse algo a esconder, você acha mesmo que eu ligaria para a polícia?
O olhar dela endureceu.
— Se a Lílian realmente perdeu a filha, por que ela mesma não chamou a polícia?
Silêncio.
Cristiano não respondeu. Mas, pela primeira vez, algo pareceu vacilar no fundo dos olhos dele. Ela tivera coragem de chamar a polícia. Então por que Lílian não tivera? Se a filha realmente tivesse sido levada, por que não denunciar imediatamente? Ou será que não denunciava porque não podia?
No hospital, assim que soube que Isabela tinha acionado a polícia, Lílian perdeu o pouco controle que ainda mantinha.
— Sabrina… Ela chamou a polícia. O que a gente faz agora?
A voz tremia.
Sabrina segurou os ombros dela com firmeza.
— Senhora, se acalme. Respire.
Lílian mal conseguia ouvir. O coração batia descompassado no peito.
— Nós fizemos tudo com cuidado. — Continuou Sabrina, em tom baixo. — Foi discreto. A polícia pode até investigar, mas isso não significa que vão encontrar alguma coisa.
"Podem não encontrar…"
A frase não trouxe alívio. Só tornou tudo mais sufocante.


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