Visivelmente irritado, Cristiano voltou a pegar a garrafa e encheu mais um copo.
— Dois anos atrás, pouco importa se ela fez de propósito ou não. — A voz de Isabela ganhou firmeza. — O fato é que meu filho morreu por causa dela. E naquele dia, na mansão da família Pereira, foi ela quem me empurrou. Uma coisa atrás da outra, Cristiano.
— Você quer dizer que, na mansão da família Pereira, foi ela quem te empurrou e te fez abortar? — Interrompeu ele.
O tom era displicente, carregado de ironia.
Isabela ainda pretendia dizer que aquele projeto, cada linha, cada traço, tinha sido desenhado por ela mesma, e que Lílian sabia disso muito bem.
Mas, diante daquele tom de desconfiança, tudo perdeu o sentido.
Não havia mais nada a explicar.
Foi Cristiano quem voltou a falar.
— A questão do projeto não é culpa dela.
Isabela permaneceu em silêncio.
— Na época, ela precisava preencher um material importante. — Continuou ele. — O projeto era necessário. Fui eu quem mandou que ela usasse.
— Você mandou? — Isabela explodiu. — E com que direito? Aquilo era seu projeto? Foi você quem desenhou?
A raiva voltou com força total.
— Era só um projeto. — Respondeu Cristiano, impaciente. — Isso é tão importante assim pra você? Além disso, você nem ligava pra isso naquela época.
Isabela não respondeu de imediato.
O ar entre os dois ficou pesado, denso, quase sufocante.
Ela o encarou por alguns segundos e, naquele instante, teve uma percepção cristalina.
Ela nunca havia conhecido aquele homem de verdade.
— "Só um projeto"? — A voz dela saiu baixa, cortante. — Eu quase morri naquele deslizamento de terra. Cristiano, você chama isso de "só um projeto"? E ainda diz que eu não ligava?
Ela respirou fundo. Cada palavra carregava indignação.
— Com que direito você decide o que eu valorizo ou não?
"Só um projeto."
"Ela não ligava."
No fim das contas, por ter se casado com ele, até o que ela podia ou não considerar importante passava a ser decidido por ele.
Isabela não quis dizer mais nada.
Ao ouvir a menção do deslizamento de terra, o rosto de Cristiano mudou, quase imperceptivelmente.
Na mente dele, surgiu a imagem do hospital.
Isabela coberta de lama, o olhar vazio, o corpo exausto.
Naquela época, ao vê-la tão gravemente ferida, ele ficara tão irritado que passou dias sem lhe dirigir a palavra.
Isabela se levantou e caminhou direto em direção à porta.
— Onde você pensa que vai agora? — Perguntou Cristiano.
Ela o ignorou.
Mas, ao abrir a porta do hall de entrada, deparou-se com vários seguranças postados do lado de fora.
Ao perceberem que ela pretendia sair, dois deles avançaram em silêncio, formando uma barreira humana à sua frente.
Isabela virou o rosto devagar e encarou Cristiano.
— O que significa isso?
— A senhora Vanessa deve chegar a Nova Aurora por volta das nove da noite — Respondeu ele, em tom contido. — Enquanto ela estiver na cidade, você não pode sair.
— E se eu fizer questão de sair? — Perguntou Isabela, a voz calma demais.
— Agora não é hora de fazer birra. — Disse Cristiano, apertando os lábios. — Você deixou sua cunhada naquele estado. Ela não vai deixar isso barato.
O olhar que ele lançou a Isabela era frio, duro.
Havia ali uma reprovação clara, como se ela fosse infantil, irresponsável, como se tivesse cometido um erro imperdoável ao provocar alguém como Vanessa.
Isabela soltou uma risada baixa.
Assentiu de leve com a cabeça e voltou para o sofá.
Jogou a bolsa sobre ele sem cuidado e deixou escapar um riso carregado de ironia.
— Vanessa, então… — Murmurou. — A famosa "figura implacável" de Nova Aurora. Aquela pra quem todo mundo sempre abre caminho.
"Figura implacável."
Era assim que ela era conhecida nos bastidores da cidade.
Coração frio.
Mão pesada.



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Os comentários dos leitores sobre o romance: Abortos Repetidos e Nenhuma Piedade: Os Culpados Vão Pagar