Dona Eunice não atendeu de imediato, parecendo constrangida:
— Senhor Sérgio, isso...
— Não vá!
Dona Helena Santana apareceu, lançando um olhar a Clarice, que se encolhia no casaco como uma flor delicada.
— Clarice, no passado, seus pais foram figuras respeitadas na Cidade N, duvido que você esteja desabrigada agora, não é?
Dona Helena lançou um olhar de repreensão para Sérgio:
— E você, na minha idade, nunca vi um homem casado trazer outra mulher para a própria casa.
Com as mãos nas costas, ela caminhou até o sofá e se sentou.
Sua postura imponente a fazia parecer uma guardiã da casa.
Ela deu um leve resmungo:
— Mesmo aqueles cafajestes que gostam de sustentar amantes fazem isso na rua. Sérgio, você vai se igualar a esse tipo de gente vulgar?
Ao ouvir aquelas palavras, o rosto de Clarice ficou pálido, como se tivesse acabado de ser tirada de um lago congelado.
Seu corpo tremia levemente, parecendo não suportar o peso daquelas acusações.
Tinha uma aparência extremamente digna de pena.
Sérgio usou o ombro para protegê-la e franziu a testa:
— Vó, como a senhora pode falar assim? A Clarice está passando por problemas ultimamente e só vai se hospedar aqui por um tempo.
Ao dizer isso, ele olhou em volta:
— Onde está a Júlia? Foi ela quem disse alguma coisa para a senhora de novo?
Fez uma pausa:
— Ela se aproveita do fato de que a senhora gosta dela, isso é muito injusto com a Clarice.
Júlia estava ali mesmo, na curva da escada, e ao ouvir aquilo, sentiu como se um balde de água fria tivesse sido jogado sobre ela.
No coração de Sérgio, ela seria sempre a insensível que não sabia se portar.
Não importava o quanto tentasse, quão bem fizesse as coisas, nunca seria o suficiente.
Já Clarice era sempre a pessoa que precisava ser protegida a todo momento.
As luzes lá fora eram brilhantes e acolhedoras.
O lugar onde ela estava era frio e escuro, mergulhado nas sombras.
Era como se refletisse sua própria realidade com perfeição.
Ela nunca fora alguém favorecido pela luz.
Ela era como as cicatrizes feias no corpo de Sérgio, que precisavam ser escondidas e não podiam ser mostradas aos outros.
Por que tinha que ser assim?
Clarice se apressou em explicar:
— Vó, me desculpe, eu estou disposta a me desculpar pessoalmente com a Júlia.
Dona Helena ignorou e falou diretamente:
— Eu já mandei a Julinha ir dormir. Agora, imediatamente, leve a Clarice embora daqui.
Sérgio parecia cansado:
Clarice sorriu com inocência, mas se conteve e não disse nada pior por causa da presença de Dona Helena.
O sentido, no entanto, era claro.
Aquela era a casa da família Santana, não da família Guedes.
Clarice olhou para Sérgio com uma expressão de desespero e lágrimas nos olhos.
— Sérgio, acho melhor eu ir embora. Eu não deveria ter lhe causado tantos problemas.
Sérgio simplesmente não entendia por que elas estavam brigando.
Por que as reações de Júlia e Dona Helena eram tão exageradas?
Não era como se Clarice nunca tivesse ficado lá; ela costumava frequentar o lugar quando era criança.
Ele apertou o espaço entre as sobrancelhas e puxou Dona Helena para conversarem em outro canto.
Clarice ficou parada. Somente quando eles estavam mais distantes, ela ajeitou o cabelo e, sorrindo, pediu:
— Dona Eunice, poderia fazer o favor de levar a minha bagagem para o meu quarto de antes?
Quando a família Cardoso estava na Cidade N, eles tinham um ótimo relacionamento com os Santana.
Sempre que os pais de Clarice viajavam a trabalho, pediam a alguém para cuidar dela.
Por isso, Clarice era uma visitante assídua.
Dona Eunice não pegou a bagagem:
— Clarice, é melhor esperar que a senhora decida onde você vai ficar.
Clarice sorriu, deu dois passos e lançou um olhar para o andar de cima.

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