No segundo seguinte, o instinto superou a razão.
A mão de Júlia foi agarrada antes mesmo que ela pudesse acender a luz.
Sérgio prensou o corpo contra o dela.
O cheiro forte e penetrante de vinho a atingiu em cheio.
A iluminação dos postes da rua invadia o ambiente pelas cortinas abertas.
A luz pálida mesclava as sombras dos dois, como se uma borracha em tons quentes apagasse a divisão entre eles.
O comportamento de Sérgio sempre fora frio e rígido.
Júlia não fazia ideia de que ele possuía um lado tão intenso e passional.
Pela estranheza da situação, ela paralisou.
Mas levou apenas alguns instantes para recuperar os sentidos.
— Sérgio, me solta...
Ela virou o rosto e se debateu, empurrando-o e tentando se defender.
O homem, no entanto, parecia movido por uma força incontrolável, avançando sempre com mais rapidez.
O peito de Júlia transbordou de raiva e mágoa.
Não conseguia evitar certos pensamentos.
Ele só estava fazendo aquilo por causa das investidas de Tiago? Era puro egoísmo e espírito de competição?
Também se perguntou se ele e Clarice Cardoso haviam compartilhado momentos de paixão ardente inúmeras vezes.
No passado, Júlia tentara, de forma cuidadosa e sutil, se aproximar de Sérgio, mas a distância entre os dois nunca diminuiu.
Depois de três anos vivendo um monólogo, ela já não desejava mais nada daquilo.
E agora, até mesmo um beijo não dependia da vontade dela.
Júlia recusava-se a alimentar a competitividade de Sérgio, a sua possessividade e os seus caprichos momentâneos.
Essa revolta e relutância atingiram o ápice quando ela foi empurrada contra a cama.
Uma lágrima escorreu pelo canto do seu olho.
Seguida de uma segunda, e depois uma terceira.
Os ombros de Júlia tremeram levemente.
Com os olhos fechados, ela sentiu que os movimentos de Sérgio cessaram.
Aproveitando o instante, ela lhe desferiu um tapa no rosto.
Um estalo nítido ecoou pelo quarto.
Sérgio estagnou.
Mas não ficou irritado.
Ele viu Júlia chorar, ouviu os seus soluços.
Ficou completamente atônito.
Sérgio franziu a testa.
Ele olhou para Júlia. Ela estava deitada na cama, puxando o casaco ao redor de si mesma e encolhendo as pernas.
Era uma nítida posição de defesa.
O coração de Sérgio doeu novamente. Ele inspirou devagar.
Ouviu Júlia prosseguir:
— Então você vai correndo buscar outra mulher no aeroporto, a leva para a nossa casa para um jantar de família, entrega-lhe todos os recursos e cargos da empresa de bandeja, e eu ainda tenho que sorrir e dizer: Tudo bem?
— E mesmo se você alugar um quarto de hotel com ela, eu deveria sorrir e abençoar o casal?
Originalmente, Sérgio queria adiar aquela conversa para o dia seguinte.
Pois ambos estavam emocionalmente abalados.
Contudo, já que Júlia havia tocado no assunto...
Sérgio não escondeu o que pensava:
— Tudo o que aconteceu não foi porque você colocou drogas na minha bebida?
Ele abriu a boca, hesitante.
Mas acabou dizendo:
— Júlia, você não deveria ter recorrido a um truque tão sujo.

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