Um truque sujo.
Rá.
Júlia abaixou a cabeça, engolindo o gosto amargo.
Afinal, que tipo de pessoa ela era no coração de Sérgio?
— Sérgio, você não é tão bom em investigar as coisas? Por que não procura saber que tipo de droga foi aquela, de onde ela veio, e quem foi que te levou àquele evento e pagou o quarto?
A voz de Júlia carregava uma exaustão profunda:
— Com a sua influência, não seria difícil conseguir as imagens das câmeras de segurança.
O problema era se Sérgio realmente não conseguira descobrir, ou se simplesmente confiava cegamente em Clarice e queria encobri-la.
Por isso diziam que aqueles que são os favoritos nunca têm medo das consequências.
Sérgio hesitou:
— Você sabe perfeitamente que não há câmeras dentro das suítes de clubes fechados.
— Eu não sabia.
Júlia disse pausadamente:
— Fique à vontade para chamar a polícia, se quiser.
Ao ouvir aquela resposta firme, Sérgio, pela primeira vez, começou a desconfiar.
Mas ainda havia outro assunto que ele precisava confirmar com Júlia pessoalmente.
— Naquela noite, nós...
— Nós não fizemos nada.
Júlia o cortou secamente.
Eram dois adultos casados.
Mas ela não era tão patética a ponto de precisar usar o sexo para manter o próprio marido.
Sérgio calou-se no mesmo instante.
Ficou fitando a própria sombra por um longo tempo, em absoluto silêncio.
Por fim, ele se levantou:
— Durma bem.
Ao chegar à porta, ele reparou naquele calendário esquisito sobre a mesa. Já tinha alguns dias riscados.
Inexplicavelmente, sentiu que aquilo pudesse ter alguma ligação com ele.
— Para que serve esse... calendário?
Júlia soltou um riso baixo.
O som escapuliu de forma apática e desprovida de emoção.
No quarto escuro e vazio, o riso soou melancólico.
Sérgio fechou as mãos com força, de repente arrependido de ter perguntado.
Quando Júlia estava prestes a responder, um estalo sutil soou próximo à janela.
O vidro estourou instantaneamente, espalhando incontáveis cacos afiados.
Júlia sentiu dor com o aperto repentino; parecia que ele a estava esmagando contra os próprios ombros.
A uma distância tão curta, ela finalmente conseguiu sentir o cheiro dele. Além do vinho, o aroma característico do perfume de laranja amarga que ele usava.
— Você... Você se machucou.
Júlia levantou a cabeça e viu dois cortes finos no rosto de Sérgio, causados pelos estilhaços.
Não apenas isso, mas, ao se jogar no chão para protegê-la, ele se apoiara nas mãos, e alguns cacos estavam encravados na sua palma.
A cena era dolorosa de se ver.
Sérgio serrou os dentes e não soltou um gemido sequer, embora a sua respiração tivesse ficado pesada.
— É o Alberto.
Ele disse.
Júlia ficou em choque.
Desde que Sérgio havia assumido a situação com Alberto Guedes, ele estava de prontidão para uma possível retaliação.
Mas jamais imaginou que o homem pudesse enlouquecer a esse ponto.
— Celular —
alertou Sérgio.
Júlia saíra para uma reunião de negócios naquele dia e, por isso, deixara o celular no modo não perturbe antes mesmo de esbarrar com Sérgio e Tiago.

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