Júlia, ainda segurando o chuveirinho, trocou um olhar longo e silencioso com Sérgio.
Segundos depois, a ponta de suas orelhas começou a queimar.
Por mais habilidosa que fosse com as pessoas, não tinha a menor ideia de como consertar aquela saia justa.
Sérgio tentou, desesperadamente, manter a pose elegante e digna, mas a bendita florzinha cintilante pulou animadamente duas vezes, destruindo qualquer tentativa.
Inspirando profundamente, ele declarou:
— Já está bom. Daqui em diante, eu consigo sozinho.
Um misto de constrangimento e vontade de rir engoliu Júlia. Ela jogou uma toalha seca ao lado dele e tratou de sair depressa.
E atirou-se no colchão.
Que dia mais exaustivo.
Tencionava esperar para checar se ele não havia molhado os curativos,
Mas o cansaço foi tamanho que, assim que fechou os olhos, apagou.
Na manhã seguinte, despertou sentindo-se como quem se recupera de um porre da noite anterior. Sinal claro de que tinha adormecido profundamente.
Tentou mover os braços, mas descobriu-se completamente paralisada.
O corpo de Júlia estava prensado contra o de Sérgio; ele a abraçava feito um travesseiro de corpo gigante.
A respiração quente e pausada do homem roçava-lhe o pescoço.
Júlia levou um instante para raciocinar.
Eram poucos os episódios em todos aqueles anos nos quais dividiram a mesma cama.
Mesmo quando visitavam a avó na casa da família e o teatro era necessário, Sérgio se controlava ao extremo, sempre mantendo a distância.
Em outros tempos, ela costumava sonhar com a sua versão de vida a dois ideal.
Uma casa aconchegante, um gatinho ou cachorro para chamar de seu e, mais tarde, os filhos correndo pela sala.
E poder acordar nos raios calmos da manhã, abraçados, compartilhando o calor de seus corpos.
Depois de se levantar, tomar um café da manhã talvez modesto, porém feito com amor.
Era a visão que resumia toda a sua ideia de felicidade.
Infelizmente, Sérgio parecia um professor rigoroso demais, riscando e anulando cada pequena expectativa da sua prova.
Ela piscou algumas vezes, esboçando um sorriso melancólico.
E tratou de lutar silenciosamente contra o aperto dele, para conseguir levantar.
Era uma briga difícil; ela se sentia como um diamante firmemente espremido dentro da estrutura de um anel de noivado.
Tentou e forçou até acabar exausta, soltando os braços e caindo de volta contra o peito dele.
Então, um som rouco e abafado lhe chamou a atenção.
Um riso contido, de apenas um segundo.
A ficha de Júlia caiu de imediato:
— Sérgio!
Para um CEO indiferente e distante como ele, sorrir era como um golpe especial que demorava para carregar.
O momento passara; a expressão fria já havia retornado ao rosto dele.
Ele soltou os braços e deitou-se de costas, completamente esparramado na cama.
Júlia saltou de supetão para cima do colchão e o fuzilou com o olhar.
Fingindo dormir, quando já estava mais do que acordado!
Num ímpeto de revolta, deu-lhe um pequeno chute.



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