Sérgio não foi para a empresa hoje; dispensara o motorista logo de manhã.
Ele mesmo dirigiu até o hospital.
Marlene Martins estava sentada ao lado do leito de Clarice, acariciando gentilmente a mão da filha.
Ao ver Sérgio, disse friamente:
— Vejo que o Diretor Santana chegou.
Clarice estava tão pálida quanto os lençóis de sua cama.
Sua voz também soava extremamente fraca.
Ela deu um leve puxão em Marlene:
— Mãe, não fale com o Sérgio desse jeito. A culpa foi toda minha.
Lágrimas acumularam-se nos olhos da moça.
Sérgio estava com o aspecto desgastado da viagem; sequer havia abotoado o paletó.
Ele temia profundamente que Clarice cometesse alguma loucura irreparável devido àquela situação.
Ao ver que ela estava bem, soltou o ar preso nos pulmões, como se finalmente pudesse voltar a respirar após muito tempo.
Sérgio aproximou-se e, contendo o tom de repreensão, perguntou da forma mais gentil possível:
— Como você foi capaz de fazer algo tão perigoso?
Marlene aproveitou para intervir:
— Exatamente. A mamãe sabe que a honra de uma garota é a coisa mais importante do mundo, mas mesmo que tenha acontecido... aquele tipo de intimidade, você não devia tentar suicídio!
A respiração de Sérgio travou por um instante.
Clarice balançou a cabeça rapidamente:
— Não é isso, Sérgio. Por favor, não se culpe. Eu só tomei alguns comprimidos porque não conseguia dormir e estava me sentindo muito angustiada.
Ao ver os olhos vermelhos da jovem e escutá-la assumir repetidamente a culpa, Sérgio sentiu-se profundamente incomodado.
Não apenas por Clarice, mas por si mesmo e por Júlia.
Era uma sensação parecida com a que sentira na infância, quando roubara um doce deixado pelos pais na mesa, o qual alegavam ser apenas para adultos.
No final, o sabor revelara-se amargo.
Ele havia jogado o doce no lixo e ainda assim levara uma surra.
Foi literalmente dar um tiro no próprio pé sem ganhar absolutamente nada com isso.
Marlene queria dizer mais algumas palavras a Sérgio, mas, como o médico responsável chamava os familiares, não teve escolha senão se afastar.
Entretanto, assim que ela levantou-se da cadeira, Clarice pulou como se tivesse ressuscitado, agarrando-se a ela desesperadamente.
A jovem, em aparente pânico, balançava a cabeça sem parar:
— Mãe, não me deixe sozinha! Por favor, não vá!
Com o coração apertado, Marlene inclinou-se e deu tapinhas em seu ombro:
— Eu não vou atrapalhar você e a Júlia.
A moça lançou um olhar digno de pena a Sérgio:
— Por favor.
Quando Marlene retornou, deparou-se com Clarice meio ajoelhada na cama, suplicando a Sérgio que não a forçasse a interromper a gravidez.
Sem hesitar, ela marchou até eles e empurrou Sérgio abruptamente.
— Diretor Santana, a nossa Clarinha é uma moça de família decente, não é como aquelas filhas de viciados e pessoas arruinadas.
— Você pode até se recusar a assumir o seu próprio sangue, mas a nossa família Cardoso vai assumir.
Ao presenciarem a cena, médicos e enfermeiras encararam Sérgio de soslaio.
Como se ele fosse o pior dos cafajestes irresponsáveis.
Ouvir aquelas palavras de Marlene desagradou imensamente a Sérgio, mas ele sabia que não tinha posição para recriminar ninguém no momento.
— Sra. Cardoso, eu virei visitar a Clarice regularmente. Se, no futuro, ela... e a criança precisarem de qualquer coisa, podem me procurar a qualquer hora.
No entanto, além disso, não podia prometer mais nada.
A fúria desenhou-se no rosto de Marlene, mas Clarice a segurou.
— Mamãe, o fato de o Sérgio ter dito isso já é ótimo, não o pressione mais.
Ver tanta sensatez por parte dela encheu o peito de Sérgio de remorso.

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