— Pense um pouco, com tudo isso, quem seria a maior prejudicada?
Clarice finalmente entendeu:
— O ramo mais velho e a Tia Simone, é claro.
Marlene a elogiou com afeto:
— Menina esperta.
Com a autorização de Sérgio, a assistente Débora Nunes, um motorista particular e dois seguranças chegaram em pouco tempo.
Ao mesmo tempo, Júlia e Patrícia chegavam ao hospital público mais próximo de casa.
O hospital público estava cheio de pessoas e o ambiente era caótico.
Com medo de ser reconhecida, Júlia havia vestido três camadas de roupas, mesmo o tempo já começando a esquentar.
Não esqueceu nem o chapéu, nem a máscara.
A dor na região do baixo-ventre estava forte, e a tontura quase insuportável.
Mas para conseguir ser atendida rápido, não teve escolha senão se separar de Patrícia.
Patrícia ficou fazendo a ficha e ela subiu para o segundo andar para esperar na fila.
Felizmente, por ser um dia de semana, a maioria das pessoas nas consultas eram idosos.
Havia alguns jovens na porta da clínica de ginecologia, mas todos estavam distraídos em seus próprios mundos.
Sendo a sua primeira gravidez, Júlia não tinha experiência alguma.
Com medo de se mover, apoiou-se na parede e sentou-se devagar, suando em bicas.
O médico prescreveu-lhe um exame de sangue.
O hospital público estava superlotado e não tinha as instalações modernas ou o atendimento ágil do hospital particular pertencente aos Santana.
Júlia esperou por mais de três horas para receber o resultado.
Ao meio-dia, tirou um cochilo no carro, sem conseguir comer nada.
O médico disse:
— Gravidez de três semanas e risco de aborto. Felizmente, o sangramento é leve. Se tomarmos os cuidados adequados, há boas chances.
Patrícia, ao ouvir aquilo, sentiu um frio no estômago.
Isso significava que não era garantia de que o bebê se salvaria.
Ela tinha mais experiência que Júlia, sabia que se tratava de um risco moderado de aborto.
Mesmo com o melhor tratamento, as chances eram de apenas cinquenta por cento.
O médico, no entanto, fez uma pergunta crucial:
— Querem manter o bebê?
Normalmente, o procedimento de manter a gravidez era feito só se a pessoa quisesse; se não quisesse, bastava interromper a gestação.
E, de toda forma, o risco de aborto já estava presente.
Seria a conexão de mãe e filho? Ela sentiu que seu coração sofria espasmos sem parar.
Uma dor que era quase insuportável.
Ao perceber, o médico deu um suspiro.
— Já que não há uma decisão tomada, vou prescrever uns remédios para segurar a gravidez por ora. Vão para casa e conversem com calma.
Notando o rosto abatido de Júlia, Patrícia a levou para casa e a acompanhou até o apartamento.
Decidiu ficar ao lado dela por uns dias.
Júlia era uma figura pública. Encontrar um cuidador ou babá envolveria uma avaliação rigorosa, o que tomaria um tempo que elas não tinham.
Antes, ela tinha uma pequena assistente.
No entanto, como Júlia havia passado anos sem atuar e estava no meio de um processo de rescisão, a assistente permaneceu na Agência Estelar.
Patrícia olhou para o apartamento vazio e, lembrando-se dos pais pouco confiáveis e do marido de Júlia, sentiu uma pontada de tristeza no peito.
Júlia disse:
— Obrigada, Patrícia. Se não fosse você, eu realmente não saberia o que fazer.
Dois dias se passaram e o sangramento de Júlia cessou, a dor na barriga quase sumiu.
Foi então que Patrícia perguntou com cautela:
— Devo ligar para o Diretor Santana? O que você... decidiu sobre o bebê?

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