As chaves do carro bateram contra a clavícula de Sérgio e deslizaram para baixo pela sua camisa.
Ele estendeu a mão.
E agarrou aquele objeto pesado e toda a perplexidade que ele carregava.
Sérgio abaixou os olhos. Seu rosto estava sério e severo.
Se Éder estivesse lá, com certeza acharia que o chefe estava prestes a xingar alguém.
Júlia esteve casada com Sérgio por três anos; o conhecia tão bem quanto a si mesma.
Qualquer expressão ou olhar de Sérgio, ela compreendia imediatamente, num piscar de olhos.
— O Diretor Santana veio hoje porque tem algo a dizer, não é?
Ele provavelmente havia recebido a petição de divórcio e, por isso, estava tentando gastar o mínimo possível para obter o máximo de retorno.
Júlia até conseguia entender Sérgio.
Comparado a toda a série de problemas que um processo de divórcio traria, gastar um pouco de dinheiro e fazer algumas gentilezas para que ela se acalmasse e ficasse quieta era muito mais vantajoso.
Contudo, ela não tinha obrigação nenhuma de cooperar.
— Se o assunto for a petição de divórcio, não temos o que conversar. Já lhe disse: se você não assinar os papéis em três dias, seguiremos pelos trâmites legais.
— Se você quiser adiar, pedir prorrogações ou solicitar a partilha de bens, faça como achar melhor.
— Porém, o Diretor Santana precisa avaliar bem se sacrificar a reputação do Oceano para postergar um divórcio é algo que realmente vale a pena.
Júlia falou tudo muito rápido, abraçando a si mesma, segurando o xale com ambas as mãos.
Sérgio notou que aquela era uma postura defensiva de alguém que percebe um perigo iminente.
Antigamente, Júlia jamais agira de forma tão armada diante dele.
Antes de ir até lá, Sérgio já havia preparado o que dizer.
Ele tinha um sem-fim de táticas de negociação para convencer Júlia a desistir de entrar com o processo temporariamente, nem que fosse apenas para atrasar as coisas por um tempo.
Contudo, naquele momento, sentiu como se alguém houvesse espalhado cacos de pregos em seu coração.
A cada batida do coração, sentia-se levemente perfurado.
— Eu só vi que o seu carro estava quebrado.
Júlia fechou os olhos. Sentia a sua ferida recém-cicatrizada latejar de novo, como se estivesse viva.
— Então, por que o Diretor Santana não foi investigar o motivo pelo qual ele quebrou?
Sérgio ficou atordoado.
O óbvio.
Júlia foi quem dominou todas as notícias, além de ter sido xingada de amante.
— Após o acidente, a senhora ficou hospitalizada por uma semana — explicou Éder. — Os registros mostram os relatórios de danos ao veículo e os diagnósticos médicos. Na época, o senhor disse...
— Já chega.
Sérgio fechou os olhos, interrompendo a fala de Éder.
Quando ficou sozinho, ele ainda levou um tempo até abrir os registros médicos de Júlia.
[Ferimento contuso no ombro esquerdo. Nove pontos. Contusão de tecidos moles. Leve concussão cerebral.]
Júlia era uma atriz. Não dava sequer para imaginar o que aconteceria se a lesão fosse em seu rosto.
E ele, com as próprias mãos, despachara da mansão justo o veículo que era provido de vidros blindados.
Sérgio ficou a encarar aquele prontuário por muito tempo.
Manteve-se inexpressivo, incapaz de dizer uma única palavra; sentia a garganta apertar-se até doer.
Tardiamente, percebeu que havia cometido um ato extremamente tolo e lamentável.
E também compreendeu por que uma sombra incisiva de dor e de humilhação perpassara os olhos outrora severos de Júlia.

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