Se a culpa era o que ele sentia por Júlia Guedes, então o que sentia por Marlene Martins era pura ira.
A pessoa que o havia dopado naquela noite não fora Júlia, mas sim Clarice Cardoso e sua mãe.
Sérgio Santana já tinha prometido a Júlia e a Heitor Cardoso que não interferiria no interrogatório.
Agora, ele havia mudado de ideia.
Quando Clarice mandou uma mensagem pedindo que ele fosse ao apartamento dela, Sérgio aceitou sem pensar duas vezes.
Heitor Cardoso havia usado muitos contatos para tentar tirá-la de lá, mas foi tudo em vão.
Sérgio não deixava pontas soltas quando agia.
Portanto, Clarice e Heitor não sabiam que fora ele quem fizera a denúncia, entregando a Marlene Martins aquele grande presente.
A compra ilegal, posse, comércio e uso de substâncias ilícitas poderiam render uma pena de até três anos.
Sérgio tinha provas, não deixando espaço para Marlene tentar se safar.
Acontece que ela insistia que havia comprado os medicamentos sozinha e que Clarice não tinha nada a ver com isso.
A pessoa que colocou o remédio na bebida também fora um garçom subornado por Marlene, e Clarice não sabia de absolutamente nada.
Sérgio não acreditou nisso, e por isso estava ali.
— Sérgio, eu fui ver a minha mãe hoje. Ela não está nada bem no centro de detenção.
— A mamãe sempre obedeceu às leis, nunca fez nada de errado. Você não poderia dar um jeito de ajudá-la?
Sérgio olhou fixamente para Clarice.
— De qual crime ela foi acusada?
Os olhos de Clarice hesitaram por um momento. Ela mordeu o lábio:
— Eu não sei direito, mas, no fim das contas, ela é a avó da criança.
— Sérgio, você não poderia pedir para o departamento jurídico do Oceano intervir, pelo bem do nosso filho?
Sérgio olhou para o ventre dela, que ainda continuava liso apesar dos quase dois meses de gravidez.
Se não fosse por esse acidente...
Ele e Júlia provavelmente não teriam chegado ao ponto do divórcio.
Com um olhar sombrio, Sérgio não confirmou nem negou.
No meio da conversa, ele foi ao banheiro.
Antes de sair, deixou uma cartela vazia de comprimidos em cima da mesa.
Clarice estava prestes a beber água, mas, assim que esticou a mão, viu algo familiar.
Seu corpo inteiro ficou tenso na mesma hora.
Letras estrangeiras, verdes.
Sérgio sempre se orgulhou de saber julgar as pessoas. Os subordinados que ele promovia e as empresas com as quais colaborava raramente falhavam.
Ele sempre odiou ser manipulado.
Nunca imaginou que cairia nas armadilhas de Clarice Cardoso.
Ao mesmo tempo, lembrou-se de Júlia.
Ela havia dito claramente que não tinha sido ela quem o dopara, e sim Clarice.
Mas ele não tinha acreditado totalmente nela.
Agora, toda aquela culpa de nada servia.
— Sérgio, não é isso que você está pensando. Eu encontrei esse remédio, eu nem sei o que está acontecendo...
Clarice se levantou e tentou se jogar nos braços de Sérgio.
Ele a afastou à força.
Uma aversão física repulsiva emanava de cada poro de Sérgio.
Ele respirou fundo, engolindo a indescritível autocobrança e a culpa.
— Vou te dar duas opções: contratar uma babá aqui no apartamento ou ir para um Centro de Gestação aguardar o parto.
— Não vou deixar faltar nada para você, mas, a partir de hoje, peço que não apareça na minha frente nem na frente de Júlia.

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