Uma dor ardente se espalhou como fogo por um dos lados do seu rosto.
Júlia sentiu o gosto de sangue do impacto dos dentes. Suas pernas fraquejaram, o corpo tombou com o impacto, e ela passou longos segundos sem conseguir se erguer.
O nível de agressão fez o estúdio inteiro prender a respiração.
O diretor não gritou corta; claramente, queria aproveitar o take para que Júlia não precisasse levar outro golpe.
Natália se abaixou e murmurou, num tom que apenas as duas poderiam ouvir:
— Júlia, a amante nunca vence a esposa oficial. Se você provocar a Diretora Cardoso de novo, não vai ser só um tapa.
Júlia apertou os lábios. Era óbvio que o dedo de Clarice estava no meio daquilo.
Sentado atrás do monitor, o Diretor Castro não sabia se Natália era idiota ou só se fingia:
— Fala mais alto! O áudio é direto, não estou escutando nada!
Natália se levantou de um salto, o rosto transbordando uma inocência culpada. Toda a arrogância desaparecera num piscar de olhos.
Ela se curvou, despejando desculpas ensaiadas:
— Me perdoe, me perdoe, diretor! Júlia, me perdoa, serei mais cuidadosa. Vamos fazer de novo!
Um assistente correu para entregar uma bolsa de gelo a Júlia:
— Júlia, o seu rosto... está muito vermelho e inchado.
Ela tocou a ferida interna com a língua antes de responder:
— Obrigada.
Pouco depois, o diretor pediu ação mais uma vez.
Natália entrou cuspindo marimbondos novamente, e lá veio outro estalo violento!
Desta vez, ela acertou a fala:
— Sua vadiazinha viciada em roubar os maridos dos outros!
O Diretor Castro berrou o corte:
— Natália, você por acaso teve algum treinamento profissional na vida? Não percebeu que saiu do enquadramento? De novo!
A essa altura, o set inteiro já tinha sacado que Natália estava ali para punir Júlia a mando de alguém graúdo.
Havia quem tivesse pena de Júlia, quem estivesse adorando o barraco, e até quem tirasse fotos escondidas.
Natália espremeu uma lágrima patética:
— Desculpa, diretor.
O rosto de Júlia precisava de mais gelo, e a equipe de produção não ousava dar um pio.
Em qualquer set, a hierarquia é brutal.
— Vadiazinha?
— A cidade sitiada há três dias. Enquanto a nobreza covarde se esconde e o povo morre de fome, a comida que comem, a água que bebem e os luxos que usam, tudo isso foi pago com o sangue e o corpo desta escória aqui!
A dicção e a carga dramática de Júlia eram impecáveis, sugando a colega de cena para o turbilhão da atuação.
Natália, apavorada com a ideia de errar e arruinar sua carreira, deu um branco no roteiro. Guiada pelo desespero, levantou a mão para bater mais uma vez.
Júlia agarrou o pulso de Natália em pleno ar.
O diretor não gritou corta, sinal de que as atrizes estavam livres para improvisar.
Como dariam andamento à cena dependia apenas da coerência com a personalidade das personagens.
Demonstrando um profissionalismo monstruoso, Júlia captou a energia no ar, deu um sorriso preguiçoso e desferiu um tapa de volta no rosto de Natália — mais rápido, mais preciso e infinitamente mais violento!
O estalo ecoou, arremessando Natália contra o batente da porta como uma mosca esmagada!
Clarice, usando seu peso financeiro na produção, havia alterado as falas só para chamá-la de vadia.
Júlia não deixou barato e devolveu o favor na mesma moeda.
— Seu homem não passa de um vira-lata que pula de barco em barco. Todo mundo sabe que você é só a amante que foi promovida. Matou a esposa legítima e torturou o herdeiro para ficar com um bosta de um marido. Outro dia deixava ele fazer o que bem entendesse, e hoje, que o cofre esvaziou, veio pedir esmola na porta da minha casa?
Júlia agitou seu leque redondo, o sorriso congelando o ambiente:
— Um traste infiel como ele, querendo rastejar para a minha cama... Me dá nojo só de pensar!

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