Júlia não fazia a menor ideia do que ele estava falando.
Mesmo assim, a atitude fria e a repulsa na voz dele a feriram.
Sem qualquer piedade, Sérgio jogou o objeto na lixeira bem na frente dela, exigindo que ela visse com os próprios olhos.
Mantendo a pose firme, Júlia se justificou:
— Não fui eu quem comprou isso.
Sérgio obviamente não acreditou:
— Então por que você me chamou de volta?
Terminar, divórcio, ir ao cartório.
Uma enxurrada de palavras passou pela cabeça de Júlia, mas, ao abrir a boca, nenhuma saiu.
Sérgio estendeu-lhe um cheque:
— Não vou remoer o que aconteceu ontem, mas não pode haver uma segunda vez. Pegue este cheque e dê um jeito de abafar as fofocas na internet.
Júlia, que estava morta de fome, perdeu o apetite num estalo.
Ela manteve a postura reta, ignorando completamente o cheque de dez milhões à sua frente, e apenas retrucou:
— Como eu deveria abafar isso?
Sérgio não tocou no café da manhã. Vestiu o paletó e sentenciou:
— Daqui para a frente, pare de fazer declarações na internet que causem prejuízos à Clarice e à empresa.
Ouvir o homem à sua frente — seu próprio marido — proteger e priorizar outra mulher daquela forma fez o coração de Júlia se contorcer em agonia.
Sérgio ofereceu o cheque mais uma vez. Ela ergueu o queixo, recusando-se a pegá-lo.
Com os olhos ardendo, Júlia mordeu a ponta da língua com tanta força que sentiu o gosto férreo do sangue.
Sérgio apenas olhou para o relógio e deu meia-volta.
Com o bater da porta, a corrente de ar derrubou o cheque que estava no móvel da entrada.
Arrastado para o pó.
Júlia caminhou até a porta, apanhou o papel e agachou-se, deixando que as lágrimas caíssem sem controle.
Ela não seria feita de idiota nunca mais.
Dinheiro e reputação. Ela ficaria com os dois.
Levou um tempo até que Júlia reunisse forças para falar. Quando conseguiu, ligou para Sérgio.
Mas a linha só dava ocupada.
Ao cair na caixa postal, ela ditou, sílaba por sílaba:
— Aceitei o dinheiro, mas isso não é para me calar. É uma indenização pelos danos à minha imagem. Não vou abafar nada. Se quiser me processar, estou à disposição.
— Não me diga que você sequer decorou as falas?
Natália tombou a cabeça, fez bico e fingiu hesitação antes de soltar:
— Não é isso. Eu só queria saber... essa cena do tapa, é para bater de verdade ou a gente finge?
— De verdade, claro! Nos meus sets, se dá para fazer real, não usamos truque de câmera!
Foi só depois de berrar isso que o diretor se virou para Júlia:
— Tudo bem para você?
Júlia só pôde concordar. E, como atriz, ela preferia a autenticidade de um tapa real.
Com todos em posição, o claquetista gritou:
— Cena 46, Câmera C, Take 1.
Júlia entrou no personagem em um segundo. Seus traços abertos e luminosos deram lugar à aura de uma beldade arrogante e gélida.
A mulher afastou as cortinas de contas e perguntou com voz arrastada:
— Quem está fazendo esse escândalo lá fora?
Natália entrou rasgando pela porta e, mirando o rosto impecável de Júlia, desferiu um tapa com toda a força de sua alma! O estalo ecoou.
A violência do golpe foi tamanha que chegou a arrancar um dos grampos do cabelo de Júlia!

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