Agora, ela se arrependia.
Ela desejava profundamente que ele caísse morto ali mesmo.
Júlia perdeu completamente a consciência, cravando um último olhar fulminante em Sérgio antes de fechar os olhos.
Éder viu o seu chefe — sempre tão frio e inabalável —, após a esposa ficar imóvel, sentar-se na beira da cama, desolado.
Parecia que ele havia lutado para se conter.
Mas acabou cedendo, encurvando as costas e afundando as mãos nos cabelos revoltos, como um andarilho desempregado nas ruas ou um estagiário que acabara de arruinar tudo.
Depois, enterrou o rosto entre os braços cruzados sobre os joelhos.
O médico nunca vira uma cena daquelas. Esfregando o nariz, perguntou:
— Então, Diretor Santana, eu realmente devo fazer o aborto na senhora?
Até porque, ele nem tinha trazido os instrumentos cirúrgicos para isso.
— Faça como mandei antes.
O médico respondeu com um "ah" compreensivo.
— O estado da senhora não está bom hoje, não posso dar a injeção de ômega 3. Vamos administrar soro glicosado daqui a algumas horas. Eu volto em alguns dias, e se os enjoos ainda estiverem fortes, aplicarei uma solução de aminoácidos nutritivos.
As mãos de Sérgio escorregaram do topo da cabeça e ele esfregou o rosto com força.
Ele nunca quisera que as coisas com Júlia chegassem àquele ponto.
Dizer antes que ia chamar o médico para fazer o aborto tinha sido apenas por raiva, só para assustá-la.
Mas hoje, as emoções de ambos saíram totalmente de controle.
E acabou nisso.
— Façam o que acharem melhor.
Dizendo isso, levantou-se e saiu.
Seus movimentos lentos revelavam uma exaustão extrema.
Júlia só acordou à noite.
Ao recobrar a consciência, ela sentou-se de supetão, sendo atingida por uma onda de vertigem.
Suas mãos tremiam quando ela tocou a barriga.
Ela sentiu a textura familiar.
Macinha e arredondada.
O bebê ainda estava ali.
Júlia soltou um longo suspiro, sentindo que havia escapado da morte.
Piscou os olhos ressecados.
Todas essas dúvidas martelavam sem parar a sua barreira mental.
Lendo o roteiro, via a pobre mulher encurralada no casamento após sofrer violência doméstica.
Naquele instante, ela sentiu uma empatia dolorosa por ela.
A comida na mansão tornava-se cada dia mais difícil de engolir.
Sérgio nunca mais havia voltado.
Ela era como uma prisioneira aguardando a sentença.
Passava os dias apavorada com o castigo iminente.
Aos poucos.
Júlia perdeu a vontade de descer e caminhar pela casa.
Ver os insetos e os pássaros lá fora já não despertava curiosidade.
À noite, a lua no céu e a varanda silenciosa pareciam saídas das páginas do seu roteiro.
A personagem agredida havia tentado dar fim à vida várias vezes, mas resistia pelos filhos pequenos.
Às vezes, ao olhar para a varanda, Júlia também sentia a vontade de pular.
E, assim, passava horas cada vez maiores olhando para a varanda vazia, perdida em pensamentos.

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