Na verdade, Sérgio não queria ter saído daquela casa.
Mas não suportava ver Júlia após o sedativo, deitada na cama num silêncio profundo.
E muito menos aquele olhar transbordando de ódio voltado a ele.
Ele ordenou aos seguranças que a vigiassem e voltou sozinho para a Cidade N.
Lucas Franco estava esperando em frente à sede do Oceano há um tempão. Assim que viu Sérgio, avançou para cima dele sem pensar duas vezes.
— Sérgio! Aonde você enfiou a Júlia? Você não sabe que a equipe de filmagens inteira está parada esperando por ela? O que você fez com ela, seu monstro?
Lucas agarrou Sérgio pelo colarinho.
Os seguranças se adiantaram depressa.
Sérgio o encarou com frieza.
— Já te disse que isso é assunto entre mim e a Júlia.
Ele baixou os olhos, sem alterar a expressão.
— Equipe parada? São só algumas centenas de milhares por dia, eu posso pagar.
Lucas empurrou os seguranças, com os dentes cerrados:
— Você não tem medo de que eu chame a polícia?!
— Chame.
Sérgio deu meio passo para trás, ajeitando sem pressa a gravata amassada.
— Vá em frente. Vamos ver se você consegue me incriminar aqui na Cidade N.
O rosto de Lucas assumiu uma expressão péssima.
Pois ele sabia muito bem que Sérgio realmente tinha esse poder.
As conexões da sua família poderiam até ajudar Júlia a quebrar um contrato ou a lidar com uma crise de relações públicas.
Mas enfrentar um colosso como o Oceano.
Não era questão de combater uma pessoa só.
Era capital, status, poder social. Mesmo mobilizando o Grupo Franco inteiro, ele nada poderia fazer.
Dominado pela fúria, Lucas balançou a cabeça:
— Sérgio, às vezes eu dou graças a Deus por você ser esse tipo de pessoa.
Ao perceber o olhar sombrio de Sérgio, não conseguiu se segurar e disparou:
— Você está destruindo a Júlia com as próprias mãos. Acabando com a confiança e com o amor que ela tinha por você... isso é maravilhoso.
— Se não a tivesse afastado de vez, como sobraria espaço para os outros?
A mandíbula de Sérgio se enrijeceu levemente.
— O que você quer dizer com isso?
Lucas soltou uma risada fria e virou as costas, saindo do prédio sem olhar para trás.
Júlia já havia perdido a noção do que era o início ou o fim do dia de trabalho.
Nos últimos dias, ela nem olhava mais para o relógio.
— Senhora, está na hora de tomar a pílula de cálcio.
— Deve chover logo, não é?
A resposta de Júlia não tinha o menor nexo, mas as empregadas já estavam se acostumando com aquele tipo de diálogo bizarro nos últimos dias.
O comprimido branco e oval encostou na ponta da língua.
Lembrava giz esfarelado.
Júlia abaixou a cabeça, observando as próprias mãos por um tempo. Em seu transe, a visão ficava turva.
O céu pré-tempestade tinha um tom azulado e nublado, sem brilho.
Ela estava tão exausta que passava a maior parte do tempo na cama.
Deixava as emoções despencarem, tão pesadas e baixas quanto o horizonte em dias de temporal.
Como se ela fosse um macarrão empapado deixado de lado há muito tempo, ou uma folha seca agarrada a um galho de árvore que não aguentaria o inverno.
Na sua mente, uma figurinha minúscula repetia incessantemente os pesadelos das noites, como um roteiro de fracasso contínuo.
Mas os seus pensamentos eram como uma estação de rádio que não recebia manutenção: sintonizava e perdia o sinal, de novo e de novo.
Júlia estava ali mais uma vez, fitando o corrimão da varanda num olhar vazio e alienado.

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