Lá no fundo, ela tinha consciência de que a sua obsessão recente com o roteiro não era saudável, e tentou se forçar a pensar em outras coisas.
A empregada avisou:
— Vai chover logo. Vou descer para guardar a cadeira de vime.
Júlia moveu os olhos bem devagar, mas não respondeu.
Afinal, elas trabalhavam para o Sérgio, não para ela. Nem sequer precisavam da sua autorização para nada.
Talvez ela tivesse cochilado um pouco.
Quando abriu os olhos novamente, Júlia havia perdido totalmente a noção do tempo.
Podia ter passado meia hora, ou várias horas.
O clima de chuva estava um pouco abafado.
Ela quis respirar um pouco de ar puro.
Então, levantou-se lentamente da cama.
Com os ombros caídos, esgotada e sem qualquer motivação, era como se tentasse se desenrolar de um emaranhado de fios de lã molhados.
E seguiu até a varanda.
O que sobrava da luz do dia refletia-se nos fios finos de chuva.
A água caía em pingos, alguns compridos, outros curtos, e alguns que saltavam ao respingar nas grades do corrimão.
No fim das contas, aquele processo de queda parecia incrivelmente livre.
Júlia estava adorando a chuva agora. O clima andava tão quente, e ela estendeu a mão para sentir as gotas, inclinando-se para chegar mais perto.
— Júlia!
Ela sentia-se absorvida numa dança magnífica.
Até ser interrompida bruscamente.
O rosto do homem estava encharcado, como um espectador atrasado que tropeça e esbarra nos outros no cinema.
Sérgio parecia totalmente diferente de como era no dia a dia.
Com os braços abertos, ele caminhava sem rumo pelo andar de baixo, inquieto e apavorado.
Aqueles lábios finos e prepotentes tremiam.
Seu rosto transparecia angústia, pânico e uma cautela excessiva.
— Júlia...
Sua voz soava incrivelmente suave, num tom de súplica: — Dá um passo para trás, seja boazinha. É perigoso ficar aí.
Júlia, porém, não via perigo nenhum. Apenas tombou a cabeça, observando-o lá embaixo em silêncio.
Ela estava sentada de lado no corrimão úmido e escorregadio, com o braço estendido, enquanto apenas as pontas dos seus pés tocavam o chão de leve.
Ela parecia uma gatinha que escapara para fora do parapeito no vigésimo andar, espiando o precipício abaixo.
Sérgio lançou um olhar furioso aos seguranças, ordenando-lhes que se aproximassem.

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