Ao ouvir isso, Sérgio nem teve tempo de ficar com raiva. Deu meia-volta e caminhou para fora.
Dona Helena viu que ele ainda usava chinelos, congelou por um segundo e depois reagiu:
— Rápido, me ajude a sair. Chame o motorista para procurar conosco.
A chuva lá fora já havia parado.
Mas a ansiedade de Sérgio não havia diminuído em nada.
A vila ficava localizada numa cidade de segunda linha, no meio de uma montanha com belas paisagens, e não na Cidade N.
De dia até que era aceitável, mas à noite a área ficava deserta.
A estrada sinuosa da montanha e a floresta densa e escura pareciam capazes de engolir uma pessoa por inteiro.
Sérgio lembrou-se do que o médico havia dito.
Júlia estava doente e ainda por cima grávida.
Se ela saísse de fininho e se perdesse, o que aconteceria?
E se fosse atropelada por um carro?
Sérgio caminhou a passos largos para longe. No início, ele achou que Júlia estava por perto.
Mas claramente não estava.
A mansão já havia ficado para trás, parecia ter encolhido de tamanho e até a luz mal podia ser vista.
Furioso, Sérgio atirou o celular no chão, quebrando a tela, e respirou fundo por um momento antes de conseguir controlar as suas emoções.
Dona Helena o alcançou com o motorista, e o carro deu duas buzinadas.
— Sérgio, entre no carro.
Sérgio sentou-se no carro. Os chinelos e as meias estavam encharcados de água, deixando pegadas molhadas no assoalho.
Apertou os lábios e segurou no puxador, olhando apenas pela janela, completamente alheio ao seu estado lamentável.
O clima não estava frio, mas após pisar nas poças d'água, ele ainda sentia calafrios.
No entanto, uma fina camada de suor cobria o rosto de Sérgio.
Dona Helena murmurou para si mesma: "Que desastre."
— Agora você deve entender que o amor não pode ser forçado. Não pressione mais a Julinha e não faça coisas das quais possa se arrepender depois.
Ao ouvir isso, os pulsos de Sérgio tremeram levemente duas vezes.
— Pare o carro, pare!
O motorista pisou no freio.
Sérgio abriu a porta do carro e saiu correndo.
Os faróis iluminaram a beira da estrada.
Ele viu uma figura esbelta e frágil, caminhando lentamente e com cansaço.
Talvez com medo de ser descoberta ou dos carros que passavam à noite, Júlia estava escondida na encosta.
Aquela estrada não tinha guarda-corpo, então se alguém caísse, ninguém notaria.
Ao ver isso, os olhos de Sérgio se arregalaram.
— Júlia, venha para cá!
Ouvindo a voz de Sérgio, Júlia tremeu dos pés à cabeça e saiu correndo na direção oposta.
A estreita margem tinha apenas a largura de uma pessoa, com raízes e galhos bloqueando o caminho.
— Pare aí!
Quanto mais ele gritava, mais Júlia ficava assustada.
Ela tropeçava; as roupas já estavam rasgadas em alguns lugares, e havia marcas de sangue no seu braço.
Os olhos de Sérgio pareciam prestes a explodir.
Ao ver os ferimentos, sentiu uma dor aguda no peito.
Uma sensação de pânico extremo o dominou.
Júlia continuava a fugir, arriscando-se a tropeçar e cair a qualquer momento.
Diante daquela cena tão chocante, os nervos de Sérgio romperam-se de vez.
— Eu prometo!
Ele respirou fundo, as cordas vocais tremendo.
As pedras perfuraram a sola do seu pé, chegando até o seu coração. Ele apertou as mãos, os nós dos dedos ficando cada vez mais brancos.
Engolindo em seco com dificuldade, disse:
O rosto de Sérgio ficou pálido ao ouvir essas palavras.
Segurou a caneta com firmeza; o seu orgulho e a sua raiva viraram estilhaços.
Qual o sentido de continuar lutando?
Júlia já havia o traído, já tinha o filho de outro, e por isso estava "manchada".
Pessoas assim não tinham o direito de permanecer na família Santana.
Com os olhos vermelhos, a dor latejante a cada palavra rasgando a garganta:
— Você não vá se arrepender disso.
Júlia observou a caneta deslizando no papel enquanto deixava escrito um nome.
E finalmente soltou um suspiro de alívio.
Foi só então que as lágrimas desceram incontroláveis.
Júlia sentia-se acordando de um longo sonho. Nos três anos anteriores, havia vivido na teia que ela mesma trançara, e, por idealizar a pessoa perfeita, acreditava ser real.
A realidade mostrava que o sentimento nunca fora mútuo.
E que sequer era cuidada e respeitada.
Júlia aprendera tropeçando a tratar como joia as pedras mais turvas e densas e, no fim, descobriu que não eram absolutamente nada.
Mas ela tentara resgatar o barco virado da vala com todo o seu esforço, e voltara sã e salva para a beira.
E daí em diante, ela seria a Júlia, e Sérgio seria o Sérgio.
Finalmente nada mais restaria a entrelaçá-los.
Júlia abraçou os papéis do divórcio e sentiu a leveza de um peso ser arrancado; até a sua respiração soou mais tranquila.
Vendo o contrato ser levado, o vazio invadiu Sérgio.
O homem então sentiu-se cego.
As crises repentinas de fúria e loucura há muito tempo eram motivadas unicamente por Júlia.
Sérgio finalmente reconhecera para si mesmo que nunca quis libertar a Júlia, não a queria distante e detestava pensar no divórcio.
Porém nada poderia ser feito agora.
Olhando a figura dela desaparecendo ao se afastar, não foi capaz de proferir uma única palavra sequer.

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