Sérgio perdeu completamente a compostura gentil que havia demonstrado no shopping.
Com os olhos vermelhos, suas costas estavam ligeiramente curvadas num esforço desesperado de se colar ao telefone.
— Alô? Alô?!
Mas do outro lado da linha só se ouvia o "tu, tu" do tom de ocupado.
A ligação já havia sido encerrada.
Tati olhou assustada para o homem bonitão.
Dora correu para lá com suas perninhas curtas.
— Moço, que legal, você corre muito rápido!
Tati puxou Dora, colocando-a atrás de si, e dirigiu a palavra a Sérgio com muita desconfiança:
— Senhor, quer que eu chame uma ambulância para o senhor?
Avançar de repente e roubar o telefone dos outros... vai ver ele era algum foragido da lei.
Sérgio continuava segurando o aparelho.
Passado um momento, ele finalmente caiu em si, e aquela postura desolada dava até pena.
— Me desculpe, eu...
Ele devia ter perdido a cabeça para reagir daquele jeito só por ter ouvido o mesmo sobrenome.
Como seria possível haver tamanha coincidência no mundo?
Completamente na defensiva, Tati estendeu a mão com hesitação:
— Pode me devolver o celular?
Sérgio o entregou para ela:
— Sinto muito mesmo.
Antes mesmo que ele terminasse de falar, Tati já tinha agarrado Dora rapidamente, se virado e saído correndo.
Sérgio observou a silhueta em fuga desaparecer sob a luz do entardecer, dando um sorriso amargo.
Tati entrou no carro e ainda sentia arrepios de pavor:
— Minha Nossa Senhora. Não é à toa que é tão bonito, mas não tem ninguém com ele. O cara tem problema de cabeça!
Ela ainda deu um sermão em Dora:
— Querida, quando você encontrar gente assim de novo, tem que passar longe, entendeu?
— Por que?
Nesses últimos anos, Sérgio procurava Tiago com frequência para irem a bares.
Porque foi percebendo que ele era o único com quem ele podia conversar sobre Júlia.
Em comparação, os pequenos sentimentos que Tiago tinha por Júlia no passado agora pareciam insignificantes.
Depois de tantos anos, Tiago já não estava mais apegado a isso.
A sua deusa e seu amigo tinham sido casados; não tinha como ele intervir.
Além disso, Júlia e Lucas já até tinham um filho, ele nem tinha chance.
Tiago observava Sérgio assim e apenas achava engraçado, quem mandou ele não dar valor antes?
Mas de tanto achar graça, acabou sentindo pena do amigo.
Sérgio tinha cometido várias loucuras, afinal.
Logo que Júlia deixou a Cidade N, ele gastou mais de dez milhões para comprar de volta a casa que tinha sido tirada dela, e se mudou novamente para aquela mansão gélida e solitária.
Depois, quando soube que ela havia saído do país, mexeu os pauzinhos e usou de todos os seus contatos para checar passagens aéreas, revirar os registros de saída e até comprou duas companhias aéreas só para facilitar.
Mas não parou por aí.
Sem conseguir encontrá-la, ele começou a viajar freneticamente a negócios pelo mundo todo, acumulando mais milhas de voo do que 99,9% dos viajantes do planeta.

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