Quando a polícia chegou à empresa, deu um longo sermão em Sérgio e no filho.
Ao verem que Júlia era divorciada dele, os policiais até mesmo a aconselharam a se proteger bem.
Sérgio nunca passara por tamanha humilhação na vida.
O seu rosto estava verde de raiva, mas não se atreveu a explodir com Júlia.
— Júlia, quando tiver um tempo, vá nos visitar em casa. A avó... sente muito a sua falta.
Os passos de Júlia estancaram.
Sérgio sabia exatamente como atingi-la.
Quando partira sem se despedir, a pessoa a quem Júlia mais sentia que devia desculpas era a Dona Helena Santana.
Ela não sentia um pingo de culpa por esconder a existência da filha de Sérgio, mas considerava isso injusto com a senhora.
Porque Júlia sabia que, se a avó descobrisse que tinha uma bisneta tão linda e comportada como Dora, ficaria eufórica e a trataria com imenso carinho.
Isso sem falar que, quando esteve na mansão da montanha, se não fosse por Dona Helena, provavelmente ainda estaria enredada com Sérgio.
Júlia guardava tudo isso no coração, mas não achava necessário compartilhar com o ex-marido.
Ela levantou os olhos e viu o olhar suplicante de Sérgio; a ironia era que, atrás dele, estava o seu filho ilegítimo.
Naquela situação, com que cara Sérgio ainda tentava encenar paixão profunda?
— Sérgio, eu não caio mais nas suas mentiras. Por favor, não use a sua avó como desculpa.
Ao se afastar, Júlia não olhou para trás,
exatamente como havia desaparecido há três anos, sem deixar o menor rastro para que a encontrassem.
No trabalho, Júlia rapidamente se entrosou com a equipe da Oceano e, sem querer, ouviu comentarem que Sérgio não morava mais na mansão da família ultimamente, mas sim na casa onde eles viveram juntos.
Após muito refletir, ela telefonou para Dona Helena Santana.
— Julinha? É a Julinha mesmo? Oh, minha filha, o Éder não estava mentindo, você voltou mesmo!
Ao ouvir Dona Helena chamá-la de "minha filha", o coração de Júlia despencou rapidamente.
Havia muito tempo que Júlia perdera contato com a mãe, Dona Vera.
Desde o momento em que saíra do país, ela deixara de ser a filha ou a esposa de alguém.
Era apenas ela mesma. A mãe da Dora.
— Nesses últimos anos, o seu casamento com o Sérgio só te trouxe sofrimento. E, sobre aquilo que aconteceu no final...
A velha senhora suspirou, balançou a cabeça e não terminou a frase.
— Fique tranquila, o Bernardo também tem um fundo igualzinho, a mãe dele não tem motivos para implicar com você. A família Santana gasta muito mais do que isso com filantropia todos os anos. Aceite, só para que eu possa me sentir mais aliviada.
Falar sobre Clarice Cardoso e o filho fez a testa de Dona Helena se enrugar.
— O Sérgio nunca permitiu que a Clarice entrasse para a família. A guarda do Bernardo pertence aos Santanas, mas ele passa alguns dias com a mãe durante as férias de verão e inverno.
— Esse menino... é muito difícil de educar.
Dona Helena relembrou a infância de Sérgio: equitação, esgrima, tênis, ele era impecável em todos os esportes, e aprendia línguas estrangeiras sem a menor dificuldade.
Bernardo, por outro lado, não herdara nada disso.
Se Sérgio não tivesse jurado de pés juntos que se envolvera com Clarice e que a criança era dele, Dona Helena jamais a reconheceria.
Alem disso, depois do nascimento do "herdeiro", os tios de Sérgio realmente deram uma trégua.
Júlia perdeu-se um pouco em seus pensamentos, concluindo consigo mesma que agora entendia o talento linguístico de Dora.

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