Sérgio não jantou. Em vez disso, após deixar uma compensação astronômica para o restaurante, retornou à empresa.
As cenas do que acabara de acontecer passavam repetidamente na sua mente, oprimindo-lhe o peito.
Foi engolido pelo arrependimento e pela culpa.
Essa sensação o acompanhou até em casa.
A assistente Débora Nunes tocou a campainha:
— Diretor Santana, trouxeram a sua roupa da lavanderia.
Ela usou a máquina na entrada para colocar propés nos sapatos.
— O pessoal da lavanderia encontrou um pingente de cristal em formato de trevo de quatro folhas no bolso da sua calça.
A pedra, lapidada em esmeralda, tinha o tamanho de uma unha. Não parecia uma joia para adultos, mas sim um enfeite de criança.
Sérgio esfregou os dedos repetidamente no trevo de quatro folhas, lembrando-se de repente do dia no parque.
Dora dissera que a mãe estava sozinha, e que já não desejava mais ter um pai.
E no shopping, o próprio Bernardo afirmara que Dora não tinha pai!
O rosto de Sérgio ficou vazio por alguns segundos.
E de súbito, um tremor incontrolável tomou conta do seu corpo.
Júlia engravidara há três anos, enquanto ainda estavam juntos. A menina não era filha de Lucas!
Não era filha de Lucas?!
O coração de Sérgio começou a martelar feito louco e a sua respiração tornou-se ofegante.
As feições de Dora inundaram a sua mente, projetando-se com cada vez mais nitidez.
O narizinho delicado e o formato perfeito dos lábios eram idênticos aos de Júlia.
Os olhos grandes e redondos, apesar da tenra idade, já exibiam uma estrutura óssea de tirar o fôlego.
Como o ser humano é muito acostumado com a própria fisionomia, às vezes acaba perdendo a capacidade de se autoavaliar.
Mas será que aquela familiaridade com Dora vinha dele mesmo?
Dora... seria filha dele com Júlia?
O pensamento brotou como uma trepadeira, crescendo descontroladamente até enredar-se por todo o seu coração.
O coração, até então repleto de feridas, parecia ter sido picado por marimbondos, doendo a cada toque.
Agora, contudo, parecia que uma pata de urso o rasgara.
Um xarope doce esguichou pelas paredes do seu peito, fazendo-o ver estrelas e tremer até as pontas dos dedos.
Isso poderia ser real?
Seria só um delírio por querer tanto recuperar o que havia perdido?

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