— Por favor, peço que não publiquem imagens que mostrem o rosto da criança. Muito obrigada.
— Peço perdão por interromper a refeição de vocês.
— Se não se importarem, eu pago a conta de vocês hoje. Só peço a gentileza de poupar a criança, obrigada.
A cada mesa que passava, ela fazia uma reverência.
Para Sérgio, resolver aquilo exigiria apenas uma palavra.
Mas lá estava ele, rejeitado, como alguém invisível e esquecido.
Além do gerente, ninguém ali se importava com as suas capacidades ou opiniões.
Desde que se tornara adulto, Sérgio raramente sentia aquilo.
O que acabara de presenciar era como um tapa que o fazia regressar aos seus sete anos de idade.
Até os sete anos, ele passava fome em todas as refeições, porque a nutricionista recomendava não encher o estômago.
Em uma festa repleta de convidados, ele roubou dois pedaços de bolo.
E a mãe o repreendeu com rispidez: "Sérgio Santana, você precisa estragar o evento que a sua mãe preparou com tanto carinho?"
Mas ele não fizera nada de mais. Apenas comera um bocado a mais.
E agora sentia-se da mesma forma.
Sentia-se mais uma vez o culpado que estragara tudo.
O mais doloroso era perceber que Júlia preferia curvar-se diante de estranhos a pedir a sua ajuda.
As têmporas de Sérgio latejavam.
O choro rouco de Dora, o som do gerente e dos garçons varrendo as porcelanas quebradas, a voz de Júlia se desculpando de cabeça baixa... Tudo aquilo lhe era insuportável.
O fato de Júlia ter tido uma filha com outro homem nunca havia se provado de forma tão crua diante dos seus olhos.
A cor da traição estampava-se nítida sobre ele.
Mas, no fim das contas, não suportava ver a sua mulher passar por aquilo.
Sérgio desabotoou o paletó:
— Júlia, venha cá.
— Venha cá, eu resolvo tudo.
Júlia o ignorou, mas Dora correu na sua direção.
O rostinho da menina estava vermelho de tanto chorar.
— Seu mau! Tio mau! Você machucou a mamãe, é um homem mau! A Dora odeia você!
Sérgio olhou para baixo, encarando aquela menininha atrevida.
Ela vestia uma blusa e calça jeans comuns, com sapatos enfeitados por florzinhas de plástico barato, que de forma alguma combinavam com o seu rostinho adorável, como o de uma boneca.
Ao ouvir a criança dizer que o odiava, Sérgio sentiu uma dor inexplicável no peito.
Júlia veio e segurou a menina, ajoelhando-se para secar as suas lágrimas.

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