A professora, bastante experiente, logo se aproximou para separar os dois.
— Bernardo, você não pode fazer isso. Solta ela.
Ao ver que a professora defendia Dora, Bernardo ficou ainda mais bravo.
— Eu vou mandar o meu pai despedir você! Nunca mais ele vai doar prédio nenhum pra vocês!
O rosto da professora perdeu a cor.
Para as pessoas comuns, o emprego era muito importante, sem dúvida.
Mas ela não podia permitir que o filho de Sérgio continuasse machucando as outras crianças da turma.
— Amanhã eu quero ver os seus pais aqui.
Bernardo não estava nem um pouco assustado:
— O meu pai tá sempre ocupado com jantares, o tempo dele vale muito dinheiro. Ele é muito ocupado. Você pode chamar o Secretário Éder.
A professora revirou os olhos.
Antigamente, as crianças da escola eram quase todas de famílias comuns, pessoas com quem se podia conversar e raciocinar.
De repente, esbarrar com um pai poderoso e autoritário como Sérgio era realmente difícil de lidar.
Por volta das dezesseis horas, as aulas acabaram.
Júlia foi pessoalmente buscar a filha.
Embora Sérgio estivesse planejando esbarrar com Júlia por acidente, os planos precisaram mudar, pois ele tinha uma reunião.
A missão de buscar o menino ficou nas mãos do Assistente Ding.
Júlia já viu Dora de longe.
Mas a garotinha, que costumava sair pulando igual a um coelhinho, estava andando de cabeça baixa.
— Dora, o que foi? Aconteceu alguma coisa chata na escola hoje?
A cabeça de Dora estava quase afundada no próprio peito.
Bernardo já havia sido transferido há uns três ou quatro dias, mas ela não tinha contado nada à mãe.
Júlia pegou a filha e a colocou no colo.
Assim que as pontas de seus dedos roçaram o braço da menina, sentiu-a estremecer levemente.
— O que aconteceu com o seu braço?
Preocupada, Júlia arregaçou rapidamente a manga da blusa de Dora.
Havia uma marca de mordida roxa, quase preta, cravada no braço branquinho da menina.
As marcas dos dentes estavam nítidas, em volta a pele estava completamente inchada e, em alguns pontos, havia até a pele esfolada.
Sérgio era mesmo um canalha.
Estava se aproveitando do fato de ela não ter dinheiro nem poder para pisar em cima, não é?
No passado, deixara a amiga de infância passar por cima dela, e agora deixava o próprio filho ilegítimo maltratar a Dora?!
Júlia respirou fundo.
Acariciou as costas de Dora.
Sua filha era perfeita, mas por culpa de sua situação, já havia se mudado de várias cidades desde pequena e também trocado de escola várias vezes.
Para uma criança daquela idade, era o momento exato de formar seus limites sociais.
Através das amizades e dos pequenos atritos, as crianças iam compreendendo as relações humanas e definindo seus limites.
Sua pequena Dora não tinha feito nada de errado.
Júlia podia até fugir, mas jamais deixaria Dora crescer com a ideia de que precisava se submeter a injustiças.
— Dora, não se preocupe, a mamãe não vai mudar você de escola, porque você não fez nada de errado.
Dora levantou o olhar:
— É verdade?
— É verdade. Amanhã de manhã a mamãe vai pra escola com você.

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